
Quando a moça viu aquele vestido, percebeu
que era a coisa mais linda já vista no seu mundo. Ficou paralisada, preferiu perder os
dois ônibus, porque aquilo compensava qualquer outro assunto. Não se interessou
em saber quanto tempo ficou ali parada, deixou perder-se em todos os lugares
que pudesse desfilar com ele.
Talvez nem soubesse se existiam tantos lugares assim, porém sabia que não era lá. Tentou encaixar ambiente e música, conseguiu nada que pudesse ser coerente àquelas cores, àquela forma, àquele brilho.
E toda vez, depois de um dia de faxina, a
caminho de casa, ela parava em frente à loja e ficava 20, 30 minutos olhando
aquele vestido vermelho. Inebriada. Tomada de um regozijo diário. Mais que o
descanso, mais que o sono, aquele era seu porto seguro, aquilo era seu lar.
E o mundo à sua volta
começou a perceber o vislumbre da diarista.
As pessoas do ponto de ônibus, o carteiro, o
dono da banca de jornal e, claro, as vendedoras e o dono da loja. Tanto que
mudavam semanalmente a vitrine, no entanto sempre deixando à vista aquele vestido vermelho.
Numa quinta-feira chuvosa, como de costume,
ela parou em frente à loja, o dono apareceu de surpresa e convidou-a a entrar.
Talvez tenha sido a única forma de tirá-la dali. E já que decidiram colocá-la
no mundo real, por que não fazê-la entrar no sonho?
Mal sabia o que responder quando foi
convidada a entrar no vermelho, sim, vestir-se de todos os sons, lugares e cores
por que passava há semanas. Não creu que teria isso com ela, não creu que sua
pele, à base de creme Nívea, pudesse tocar superfícies jamais imaginadas.
Ao sentir aquilo deslizar pelo seu corpo não soube descrever. Literalmente, se não conhecesse tantos
lugares ou músicas que pudessem se encaixar naquele vestido, teve a certeza de
que também todas as palavras que sabia não poderiam expressar a emoção que
sentia.
Quando se virou ao espelho, os olhos não
poderiam mostrar algo mais lindo, algo mais perfeito. O rosto de criança em
frente ao carrossel era nada perto daquilo. Choravam as vendedoras, chorava o
dono da banca, como também o carteiro e todos do ponto de ônibus, todos estavam
ao redor dela.
Ela começou a desfilar pela loja, abriram um
corredor para que passasse e levasse consigo todos os sonhos que já sonhou
nessa vida, ainda que poucos, entretanto realizados. Sabia que tinha de ficar
nele, sabia. E foi o que decidiu fazer.
Não importava quanto tinha na carteira, não
mediu qual seria o resultado daquilo que decidiu tomar pra si, não quis divisar
quais seriam as consequências. Tomou fôlego, pegou a bolsa e saiu em disparada
pela loja rua afora. Como um raio. Um raio vermelho. Deixou as roupas antigas
por lá...
Chovia muito, e todos viram um sonho virar a
esquina, vermelho, e com um sorriso contagiante. E o dono não quis aceitar o
rateio que o carteiro sugeriu, a dona do vestido já otinha financiado há semanas, diariamente, um
jeito de ser feliz.