segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

TODOS SOMOS HERÓIS!

Odeio clichês, mas o título acabou sendo inevitável. É impossível não associar infância e heróis. Todos nós já fomos ou quisemos ser um.

E por que também não crescer querendo ter uma capa? Posso dizer que tive e tenho heróis como quem tem melhores amigos. Cansei de contar quantas vezes já voei e salvei cidades. Mas também, quantas vezes fui e sou uma estrela do rock ou um Nobel literário.

Voz de Freddie Mercury e mente de Saramago...

Mas o primeiro herói. Ah, sempre o primeiro herói. Aos 12 anos, assisti ao musical HAIR, de Millos Forman, filme da peça de estrondoso sucesso na Broadway, nos anos 60, filmada no fim dos 70. Esse filme mudou minha vida cultural!

Quando vi Berger (Treat Willians) - o líder hippie que tenta convencer um caipira a não ir ao Vietnã – cantando, idolatrado por todos e dançando em cima de uma mesa, chutando toda burguesia para o chão, eu quis ser aquele cara.

Por anos, eu fui Berger!

Quando nem mais me lembrava de minha identidade secreta, numa das várias tentativas minhas de emplacar um trabalho meu, deparei-me com uma amiga de uma grande amiga minha. Essa atriz entrou na minha vida para revelar ao mundo algo que eu sempre soube:

- Adriano, você, que ama Hair, já reparou como o Berger é a sua cara?

Sorriso. Assim como perdi as contas de quantas vezes vi o filme, não sei quantas vezes essa frase ressoou em minha mente.

terça-feira, 2 de agosto de 2016

BASTIÃO, O TAXISTA SUINGUEIRO


Bastião era taxista. E, naquela tarde de segunda-feira, um casal animado entraria em seu carro rumo a um destino inusitado: “Ao motel mais próximo, por favor”. Tudo bem que ruas, alamedas e avenidas faziam parte de seu itinerário diariamente, mas os locais que as margeavam não lhe eram de domínio.


A sinceridade falou mais alto e disse que o que conhecia  ficava a 15 km de lá, cujo dono, compadre de anos, sempre recomendou para que o taxista e a esposa aparecessem por lá. “Sem problemas”. O tesão faz isso, ele concordou. Com o trânsito pouco lento, 50 reais de corrida seriam bem-vindos, porém a pouca castidade e exibição no banco traseiro foram mais convidativas.

Pisou fundo e, em exatos 30 minutos – longos, por sinal, a Fonte dos Prazeres aparecia linda na frente de ambos. Ele parou na recepção, teve de intermediar a suíte, piscou para a menina - filha do amigo - passou os documentos, levou-os até o 45 e saiu. 

O trajeto de volta serviu como sorriso. Aquilo seria uma história e tanto para amigos. 40 minutos depois, estava de volta ao ponto, mal estacionou e uma outra mulher entrou esbaforida em seu carro, dizendo: “O senhor acabou de levar um casal há pouco, não?”

A descrição era exata do rapaz.

- Ele é meu marido! Quero saber aonde o senhor os levou e me leve até lá, agora!

Poucos segundos separaram o não do sim. 300 reais estavam em suas mãos antes de sair em disparada. A moça chorava copiosamente. Bastião, com anos de prática, pelo caminho tentou acalmá-la. Disse que abriria mão da corrida pela paz dela. Mas a moça estava irredutível.

1 hora depois, chegavam ao local. Teve de escolher um quarto, deixou ambas identidades na recepção – piscou de novo para a menina - e teve de parar em frente ao 45. Rezando para que ela sumisse dali e ele também. Daí então, mais 300 reais apareceram na sua mão: “Espere aqui, por favor, não demoro”.

600 reais valeriam aquele constrangimento? Sim, com certeza. Tentou fazer o papel de expectador. Em 25 minutos, não se sabe como, ambos saíram de lá. Sim, o casal no papel. E pior, entre sorrisos e afagos. Como assim???

Saíram os três e deixaram a moça lá. Quase uma hora depois, deixava os dois no apartamento. Durante o caminho, ele teve de se segurar para perguntar o porquê daquilo tudo. E a moça, coitada? Ficou lá. Sem casal, sem carona, nada. Para endossar a cumplicidade, mais 400 reais apareceram na suas mãos.

Três corridas por 1050 reais? Mas isso não comprou a paz dele. Antes mesmo de pensar, voltou ao motel. E, qual não foi sua surpresa, ao ver a esposa lá, parada em frente ao local. A filha, que contou pro pai, que contou pra esposa, que bateu as notícias para a comadre. 

As notícias correm rápido, quem explicaria um suingue do sonso Bastião com pessoas descoladas. A moça largada já havia ido embora.

E tudo acabou bem, porque os mais de mil reais serviram para comprar a paz da esposa, que exigiu um jantar romântico no melhor restaurante da cidade e toda uma produção a isso. A noite terminou muito linda e fogosa. Claro, no motel Fonte dos Prazeres, cortesia do compadre, mas não na suíte 45, que estava ocupada no momento.

terça-feira, 26 de julho de 2016

AS CHAVES DO MENDIGO

Era mania dele, não era comum ver um mendigo com uma caixa imensa forrada de chaves. Sim, todos os formatos, todas as cores e tamanhos. Além dos 4 cães, dividia sua pousada com elas. Não tinha lá grandes aspirações, conseguia comida aos amigos, o que sobrava, ele se fartava, e vivia à base de água, bolachas e chaves.

Pelo bairro e transeuntes rotineiros, aquela caixa de madeira forrada de objetos pontiagudos era no mínimo inusitado. Ninguém nunca o fez, mas a vontade de indagá-lo sobre a coleção dominava o clichê das mentes que por lá percebiam a coleção.

Começou a se tornar comum, que, em vez de esmolas, as pessoas passassem a dar-lhe chaves. Sim, inúmeras delas. Em alguns meses, ele já colecionava duas caixas imensas. Todos conheciam o rapaz, que devolvia com um sorriso careca e um “Deus te abençoe” a todos que o entregavam mais uma para a coleção.

Até que um dia, uma boa samaritana, passou e deixou a ele, em vez de uma chave, um bolo inteiro. Ele, como de costume, sorriu e entregou uma chave a ela, que meneou a cabeça e antes que perguntasse, ele respondeu: “Para abrir outra porta, como você abriu agora”.

O dono do açougue, que sempre acompanhou o mendigo presenciou a cena e ficou rubro de vergonha. E começou a espalhar a todos o que havia acontecido. E a notícia, por todos do bairro, se alastrou como uma epidemia.

Foram incontáveis sorrisos, começou a haver estoque de bolachas, água e, dia a dia, a duas caixas de chaves foram desaparecendo, foram sumindo por completo.

E no fim daquele mês, já com as duas caixas vazias, com um estoque para meses e mais meses, maiores que as duas caixas de chaves, ele decidiu sumir de lá. Nunca mais fora visto nas imediações.

Saber enxergar quais são as necessidades que cada pessoa careça é um dom, mas de uma coisa o mendigo sabia muito mais que os outros, que um sorriso pode abrir muito mais portas que todas as chaves desse mundo.

Os 4 cães adoram bolacha de água e sal.

terça-feira, 19 de julho de 2016

COM QUE ROUPA EU VOU?


Eva no divã, porque não tinha um closet nem amigas para exibi-lo. Não entram aqui os acessórios, que acabam se tornando roupas também, como bolsas, sapatos, cintas, colares, anéis etc. Para nós, homens, as roupas se resumem a calças, camisetas, bermudas, chinelos. 

Já para o sexo oposto, melhor nem começar. Já tentaram ler rapidamente tailleur e talharim? Você não consegue diferenciar, porém as mulheres sabem bem a diferença entre roxo, violeta, berinjela e fúcsia, que sei que existe pelo relato que está por vir.


E que moda é essa de se criarem cores? E, se você pergunta o que é uma cor berinjela, a indignação delas será maior que a que veio junto à sua pergunta. Por isso não existem garotas que sejam daltônicas, seria como a cegueira aos homens. E fato: mulheres sem arrumam para outras mulheres. Isso é lógico.


A questão é o seguinte, havia uma festa de amigos de infância dela. O acontecimento do ano, porque todo ano havia um. Aquele era o vigésimo encontro, mas, ao longo do ano houve casamentos, festinhas, foi quando ele se deparou com uma planilha de excell, com nomes de mulheres e roupas que estas já tinha visto a garota vestindo, cores, estilos. Depois dessa matemática toda, tinha uma tarefa naquele sábado à tarde: encontrar um vestido fúcsia.

Confessaria que para ele fúcsia era uma marca nova de roupas. Mas como o silêncio é uma bênção, aprendeu que era um vestido roxo, quer dizer, violeta, ou melhor, berinjela: fúcsia. E a festa seria numa mansão do pai da garota, banda ao vivo de Beatles cover, coisa boa. A vestimenta dele era algo bem elaborado: jeans, camiseta descolada e um sapatênis, porém ela precisava de um vestido fúcsia.

Nem é preciso falar que depois de algumas lojas e horas, encontraram o avatar em uma trigésima tentativa e sem almoço. Já repararam como a fome delas some quando a roupa está em destaque, devem se alimentar de calças, saias, echarpes? Nem adianta o bico, porque o que poderia aparecer se o objetivo não fosse alcançado seria o armagedon.

Enfim, acharam o prêmio, disse a moça que vendera o penúltimo há duas horas. Nessa hora, torceu para que o outro atormentado tivesse passado por algo melhor, homens são solidários em tudo. E aí, o sorriso dela apareceu, junto às 15h daquele sábado quente. E como 400 reais são nada ante um objetivo. Para ela, o vestido era mais saboroso que aquele hambúrguer de picanha de 300 gramas.

Não comeu. Tomou uma água com gás e saíram.  O rapaz a pegou às 22h, ia já preparado para dizer que aquele vestido roxo, ops, fúcsia caíra muito bem. Protocolos feitos, chegaram ao bairro nobre. Serviço de vauchet, mansão toda iluminada. E o desfile começou, os homens sempre na sombra e as meninas medindo as amigas e cada uma tendo a certeza de que estavam melhores do que todas. E a garota de violeta, ops, fúcsia, estava linda, roubou a cena mesmo.

Porém aqueles bolinhos de queijo foram mais chamativos. Mas não tão chamativos quando a dona da festa apareceu, sim, a mesma dona do penúltimo vestido vendido. Foram duas comissões da vendedora, agora se entende o sorriso largo dela, o mesmo sorriso que sumiu assim que as duas se cruzaram e o mesmo sorriso que estampou o rosto de todas as amigas de infância dela.

O namorado foi arrastado para fora da festa, mal conheceu o pessoal, 400 reais foram queimados, um evento que se findava, um vestido amaldiçoado, um caminho de reclamações, e ele terminou em frente ao TV, comendo uma pizza fria, que sobrou de casa. A festa, apenas escutou do carro: “You say goodbye and I say hello”.

terça-feira, 12 de julho de 2016

FRIENDS WILL BE FRIENDS RIGHT TO END

Amigos! É sempre assim, juntos sempre e com promessas de amizade eterna. E com aqueles não era diferente. Conheceram-se na escola, os dois com 9 anos e passaram a conviver quase como ar e pulmão.

Tornaram-se cúmplices. Surras foram livradas, um pelo outro, sempre. Passaram pela adolescência, passaram colas, noites acampando nos quintais, campeonato de Enduro, os vários filmes na Sala Especial, da Record. Perderam histórias e ganharam muitas.  

O primeiro beijo, quando um acordou o outro para contar. Aquela dúvida de Matemática que só o amigo poderia sanar. Não tinham irmãos, mas eram irmãos.

Os pileques, a mesma tara pela Magda Cotrofe, os penteados iguais aos do Paulo Ricardo, e a mesma raiva de não terem conseguido ir ao primeiro Rock in Rio. O primeiro show. Um olhava e o outro completava.

O cursinho pré-vestibular. Um passou e o outro não. Mesmo que os horários dos trabalhos não batessem, a agenda se encarregava de juntá-los. Um se formou enquanto o outro não pôde estar presente, viajando a negócios.

Um se casou, e o outro não pôde ir também porque a reunião em outra cidade atrasou. E mesmo que o convite para ser padrinho do primeiro filho acontecesse, seria a formatura da namorada.

E assim a vida seguiu.

Hoje, dificilmente se falam. E parece que um aceitou o outro numa rede social, quando compartilharam aquelas lindas mensagens de amizade eterna.

terça-feira, 5 de julho de 2016

COISAS DO FUTEBOL

Quem conhece futebol conhece a cena, último jogo do campeonato de pontos corridos. Time da casa enfrentando o penúltimo e já rebaixado adversário. Precisando apenas de um empate para levar o título que há anos não vê. Casa lotada, imprensa internacional por lá.

Com a média de gols extraordinária, mais de 100, a equipe era base da seleção do país. Orgulho da cidade, inveja dos coirmãos. Faixas de campeão vendidas a rodo, fogos a semana inteira anunciando o óbvio, um natal mais feliz a idosos, que relembravam os anos de glória, e a crianças, que finalmente devolveriam tudo que vinham sofrendo.

Domingo já de férias, clima agradável, ingressos nem com cambistas, transmissão até para a cidade onde seria a final. O estádio quase veio abaixo quando os iminentes campeões apareceram no gramado. Fogos, fumaça, papéis higiênicos num clima retro brindavam o título.

5 minutos, 10, quase e nada do adversário aparecer. Ganhar o jogo por WO não seria digno para todos. Até que o massagista dos rebaixados entra em campo e puxa o árbitro para um à parte. Por uma questão absurda de logística e incomum, o uniforme dos jogadores tinha sido desviado sabe-se lá pra onde.

Sim, sabe-se lá como, a bagagem com os uniformes foi extraviada e eles não tinham como entrar em campo. Caos. Discussões entre dirigentes. A notícia chegava às arquibancadas, deixando a festa com um sabor meio amargo. Depois de quase meia hora, a hecatombe foi aceita: o adversário jogaria com o conjunto do uniforme número 3 dos da casa.

O branco seria páreo contrastante ao azul. Festa retomada e, em minutos, estavam em campo. Nada seria motivo pra se estragar o clima. Hino Nacional em uníssono, palmas, e o apito soava como um bálsamo, bola em jogo e, em dois minutos, já na trave dos rebaixados. Um uníssono “uuuuuuu” foi ecoado por lá. O gol seria questão de minutos, e foi.

Num contra-ataque avassalador, a torcida mal pôde crer, sim. Os de azul abriam o placar. Sim. Agora, para ser campeão, o time da casa precisava fazer um gol. Perdiam. Isso não calou de vez os torcedores, que se inflamavam e viam, de novo, outra bola na trave. O empate era iminente. E permaneceu iminente com mais três chances claras de gol, e ficou mais iminente quando o zagueiro tirou a bola em cima da linha, e ficou iminente até o término da primeira etapa.

O intervalo foi um silêncio. A iminência do gol de empate voltava junto com o canto das arquibancadas e o time da casa, com mais um atacante. E o gol de empate ficou iminente naquele contra-ataque em que o goleiro fez um milagre. E mais iminente ainda quando a quarta bola na trave ressoou por ali.

Mas não tão iminente, quando o centroavante avançou livre, e o lateral, num carrinho por trás, fez pênalti e acabou expulso. O estádio veio abaixo. Fogos, cantos e aquele terremoto branco presente. O meia, artilheiro do campeonato, cobrador oficial, pegou a bola. Silêncio. O time da casa, com um a mais, ratificaria o título iminente.
Escolheu o canto e bateu. O grito de gol desceu goela abaixo, porque a bola, pela quinta vez, explodiu na trave. A partir de então, foi um festival de desespero e chuveirinho na área. Com 10, os rebaixados se fecharam, e o iminente campeonato começou a sair do estádio aos poucos, sem que ninguém percebesse. Nem mesmo os 5 minutos de acréscimos ajudaram.

Fim de jogo. Rival campeão em outra cidade, festa adiada, numa tarde inesquecível, que endossou, literalmente, a explicação do capitão derrotado: “perdemos para nós mesmos”. E ninguém do time adversário quis devolver a camisa azul.


terça-feira, 28 de junho de 2016

A FÉ NÃO COSTUMA FALHAR...

Roberto é um mecânico dedicado. Há anos a graxa está presente na família. Foi o avô, italiano carrancudo, que o incentivou a abrir o capô dos carros e entender a engenharia dos homens.

Nunca acreditou em Deus. Talvez por Ele não aparecer entre os parafusos e os inúmeros automóveis da oficina, ou simplesmente por estar em falta no mercado, porém isso talvez mudaria radicalmente de uma forma outra naquela noite.

Juan Jesus Arribal era filho de espanhóis e herdara há anos da família uma rede de restaurantes na capital. Foi a avó que o incentivou a abrir a primeira panela. Chegou a chef, formado em Paris e voltou pronto a tudo. Uniu o fogão à administração, os 3 estabelecimentos viraram 8.

Nunca acreditou em Deus. Talvez por Ele não aparecer entre as faturas ou por o restaurante sempre estar lotado, em esperas intermináveis, contudo isso mudaria radicalmente de uma forma ou outra naquela noite

Sabe-se lá por que motivo o milionário estava sozinho naquela avenida numa noite fria, afastada. Os assuntos que o levaram até lá podem não ser pertinentes, entretanto nos é essencial perceber que o carro começou a engasgar há 15 minutos. O importado tinha uma engenharia difícil, ignorância do dono, que dispensou o motorista para velar a mãe.

Assim que entrou naquela avenida, percebeu que o carro falhou e parou. A quase madrugada não serviu de empecilho ao caótico trânsito da capital. Os 9 graus poderiam ser definitivos a isso também. Taxi àquela hora seria uma bênção. Não havia algo vivo por ali. E sabe-se lá quem seria a seguradora ou o corretor do homem, falta de bom senso acordar a secretária para tal.

Quis o destino e por sorte de Juan que a cunhada de Roberto fosse geminiana e aniversariasse sempre no inverno. Quis o destino e por sorte de Juan que Roberto gostasse tanto dela que fizesse questão de aparecer, mesmo naquela segunda-feira. De longe avistou o pisca aceso e o capô aberto.

Nunca entendeu por que - mesmo que alguns motoristas só soubessem guiar – certas pessoas tentassem enxergar um problema invisível. Talvez fosse um sinal, um chamariz, um “Me ajudem”. E assim se deu. Pelo carro e pela cara do dono, o sobretudo constatava o fato, decidiu se aproximar ou até esperar que o guincho viesse.

Ressabiado e assustado, o empresário olhou Roberto, que, com um sorriso e de mãos dadas à esposa, afastou qualquer possibilidade de ameaça. Não se sabe o que falaram, porque a distância não nos permitiu ouvir. Fato é que, mexe daqui fuça dali, em meia hora o carro funcionou.

Ainda que preferisse voltar de ônibus e não cobrar o serviço, mesmo porque aquilo foi apenas um ajuste para que se voltasse seguro pra casa, foi convencido a subir no carro e a ser levado pra casa.

Conversaram muito durante o trajeto. Antes de deixá-los, o casal recebeu um jantar cortesia em um dos restaurantes da rede e a promessa que, assim que amanhecesse, o carro estaria numa oficina para o reparo total. O casal se protegeu do frio e o empresário, dos riscos.

Dias depois, um cartão chegava pelos correios. Sim, de agradecimento, de profundo apreço a pessoas únicas. Junto a ele, havia um farto cheque, com a promessa de nunca mais precisarem de ônibus. Se anjos existiam, Roberto era prova viva de que Deus organizava as coisas por ali.

Ao mecânico, de uma forma ou outra, este sim poderia, no carro seminovo que pagou à vista, colocar o adesivo e divulgar literalmente a boa-nova: “Foi Jesus que me deu”.