terça-feira, 4 de dezembro de 2012

A MENINA DA AGENDA

Trabalhar em motel é um balde de histórias e entretenimento. As bizarrices e preferências vão do nojo ao requintado. As recepcionistas, apenas no olhar, sabem se são casai de namorados, de amantes, uma aventura apenas ou segredos que é melhor não revelarmos.

E existiam as curiosidades. Como a daquele rapaz, que toda semana, de segunda a sexta, aparecia por lá em horários variados, com mulheres variadas. Exceção às sextas-feiras, quando sempre ele chegava primeiro e a moça - talvez uma filha cujo pai desaprovava o namoro ou mesmo uma segunda namorada – chegava religiosamente 20 minutos depois.

No primeiro mês, era o assunto do local. Recepcionistas do turno da noite, camareiras, cozinheiras e os rapazes que sempre estavam por lá cuidando do jardim e de tudo o que um estabelecimento desse precisa, sabiam da rotina.

A partir do segundo mês, já se tornava rotina. Os olhares já eram de uma vizinhança sadia. Os bons-dias se tornavam mais frequentes. Simpático o rapaz, trabalhava com o pai, um empresário no ramo de pneus, e ímã para todas.

E a recepcionista era a única que achava aquilo tudo absurdo. Vivia jurando que entregaria o rapaz à moça da sexta-feira. Até pensou que poderia levar a mulherada para uma outra coisa, mas não, as camisinhas sempre eram usadas. Ele até inspirou o local a começar a vender Viagra.

E a moça o odiava. Não o olhava no rosto, sempre pedia a suíte 32, e ela praticamente colocava todo o desprezo e asco na situação. Como podia aquilo? Uma fixa e todas as demais variadas, em dois meses? Ela contou 33 mulheres, 32 diferentes, isso era mulher para uma vida toda de um grupo de 10 homens, muitas vezes.

Até que naquela semana, ela havia tomado uma decisão, na sexta-feira, ela colocaria tudo em prática. E o Don Juan da zona leste esperaria mais do que vinte minutos. Estava decidida, mesmo que todos implorassem para não se envolver, mesmo que custasse o emprego dela, até para sacanagem deveria haver respeito.

4 dias naquela semana, 4 novas mulheres - 37 agora na estatística - tudo como sempre. 1h30 de estada, 82 reais de conta, pagas com dinheiro. Nada de novo. Até que sexta chegou.

As recepcionistas da noite não foram embora. As arrumadeiras e demais empregados ficaram alerta. 8h30, como sempre, o rapaz chegou e estranhou que a mal-humorada sorria e dizia “a mesma de sempre?” com uma docilidade contagiante. Ele estranhou, mas devolveu o gracejo.

20 minutos depois, a menina chegava. Não podemos ouvir daqui o que conversam, mas se percebe uma certa contrariedade no olhar da motorista, que, em poucos minutos, entra e sai do motel. Ela tinha conseguido.

Triunfante, sorridente e com aquele olhar de só os ambiciosos têm quando o objetivo é alcançado – sai da recepção, sob os olhares perplexos de todos, segue para a suíte 32 e, ardilosamente, se transforma na mulher número 38.

Não ficou mais que meia hora, porém, agora, todas as sextas-feiras, entre 15h e 16h, ela deixa de ser empregada e passa a ser cliente do local.

domingo, 2 de dezembro de 2012

O DIA QUE JOGUEI A LIBERTADORES DA AMÉRICA

Serginho Fraldinha,
no Palmeiras em 1990
Em 1982, por influência do meu irmão gêmeo, excelente zagueiro, tornei-me jogador federado de futebol de salão. O talento do Luciano era visível, e não me incomodava de ser o irmão dele. Ficava na reserva, tínhamos a mesma posição praticamente, foram raras as vezes que entrei em um jogo.

Um ano depois, já mais propenso a seguir pela música, dividíamos a zaga titular de um pequeno clube do Tatuapé, o Milionários. Os jogos eram às sextas-feiras e não posso dizer que era algo empolgante.

Mas houve um jogo contra o Corinthians. Éramos do Mirim e o time deles era ótimo. E tinha um linha de ataque excelente, na qual um moleque, arisco, franzino e talentoso se destacava dos demais.

Serginho Fraldinha, era o apelido dele, o tamanho e a categoria pela qual se destacou faziam dessa lenda o terror dos zagueiros.

Naquele dia de 1983, a quadra estava lotada. Nosso uniforme preto e amarelo nunca esteve tão reluzente. E caberia a mim marcar o demônio. Lembro ainda de pedir ao técnico se ao Paciello talentoso não seria melhor a função.

Mas meu irmão era uma espécie de líbero, excelente na defesa e muito útil no ataque. “Siga onde aquele moleque for, Adriano, se ele for ao banheiro, dê a descarga” – disse o técnico.

Os Paciellos, que de italianos e de palmeirenses só faltava o turbante, entraram na quadra com os olhos vidrados. E aquele gravetinho loiro já entrava em meu olhar. Torcida fazendo um barulho do inferno.

E Serginho Fraldinha era o cão. Ágil demais, acompanhar o desgraçado era como tentar pegar um frango. Habilidoso  e muito rápido, mas também tinha lá seus truques. Na primeira bola comigo, usou o cotovelo no meu peito. Falta. Nada.

Reclamei e meu técnico me pediu silêncio e fôlego. Segunda e terceira bolas, segunda e terceira cotoveladas. A tensão começou a se transformar em raiva. “Lu, eu vou matar esse filho da puta”, disse ao gêmeo, que me pediu calma, porque eu estava entrando no jogo dele.

Quarta bola, cotovelo. Quinta bola, cotovelo. E foi assim com a sexta e a próxima.

Já babando de raiva, não mais escutei meu irmão, o técnico o qualquer outra coisa. Até meu pai e meu irmão mais velho, da torcida, me pediam calma. Mas o juiz não via o cotovelo daquele moleque.

Cego de ira, afastei a marcação, deixei que ele dominasse a bola e viesse ao meu encontro. E foi o que aconteceu. Ele jogou abola para o lado, que passou lisa, mas ele não. Um senhor chute de direita, e levantei o meleque do chão, que caiu berrando.

Mal tive de tempo de olhar para ele e rir, e vi o cartão vermelho na mão do juiz. Fui expulso. O técnico do Corinthians retirou o time de campo e eu, literalmente, acabei com o jogo e com a minha carreira.

Não foi um lance para meu pai gritar da torcida, “Olha lá, é o meu garoto!” – Mas se pudesse voltar no tempo, eu o teria chutado de novo e pisado no tornozelo dele.

Maldoso, eu? Nada, na Libertadores é assim que se joga!  

P.S.: em 1990, como jogador profissional, Serginho foi para o Palmeiras, e numa bola perdida, meus irmãos me incentivaram a correr ao alambrado e dizer que eu o encontraria de novo!

 

 

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

TUDO BEM

Ambos vinham de um relacionamento conturbado. Traumatizados por brigas, desconfianças e desgastes. Ela ainda estava num litigioso complexo, o apartamento que pagou sozinha entrava na disputa.

Ele já teve mais sorte, mas ainda acordava durante a noite, carcomido pelas vezes que entrava de madrugada tropeçando nos copos que vinham em cada ombro, uma sombra etílica quase que interminável.

Juraram e se prometeram não terem compromissos. Na primeira noite, riram muito e viram que além de filmes franceses e de arte também sabiam tirar um sorriso do outro. Bom indicador aquele.

Não viram como se beijaram, mas sabiam que depois daquele beijo levavam o medo de tentar de novo. Seria ele um aproveitador? Seria ela uma alcoólatra? Torceram para ninguém mandar um bom-dia pela manhã, mas não souberam que o fez primeiro.

No segundo encontro, foram a um cinema e quando perceberam, só estavam os dois no bar da esquina sem perceberem que a torcida não era por mais uma bebida, mas pela conta.

Nesse meio tempo, o apartamento ficou com ela e ele só bebia café puro.

Sabiam que se acharam porque comungavam da mesma opinião. Sem compromissos, sem protocolos, sem família, nem primos, nem festas de família, nem almoços de Natal ou de Páscoa. Teriam o momento deles e, somente num comum acordo, estariam juntos, mesmo que a sociedade pedisse.

E assim funcionou até aquela noite, quando ela ficou sem bateria no meio da viagem de volta e ele esperou pelo torpedo dela a noite toda. Ela se desesperou e não pôde parar para avisar, e ele tenso porque a caixa postal o atendia.

E depois disso, naquele fim de semana, os seis estavam almoçando juntos, os pais e as mães nas futilidades e aliviados por todos existirem, enquanto ele deixava torrar um pouco o salmão e ela se espetava nos espinhos das rosas no belo arranjo da sala.


quarta-feira, 28 de novembro de 2012

AU REVOIR, BRASIL!

Já podia ter imaginado pelo clima daquela manhã, pelo olhar do diretor e pelos sorrisos forçados dos colegas. Assim que entrou na sala ampla, de mármore carrara na mesa, e viu os charutos sobre ela, sabia que a celebração era iminente.

Antes de ouvir, olhou para os olhos vívidos, aqueles que transpiram a ansiedade de uma boa notícia, daquelas que todos se matariam para falar. Anos naquela multinacional, anos lidando com pessoas e números, aprendeu a estar atento a qualquer movimento diferente.

Sentiu que valeu a pena abdicar de família, amigos. Que a dedicação ao MBA e às horas de negociações, ao inglês, ao francês e ao espanhol teria enfim um resultado justo. Viu passarem para dentro todos os diretores, o vice-presidente, e todos tinham o mesmo brilho nos olhares.

Nos poucos segundos que esperava pela notícia, lembrou-se de tudo. A dedicação em forma de sopro, de vento doce e da promessa de que tudo acabaria bem.

Que os emails de parabéns, de orgulho e de símbolo de empenho à empresa realmente eram verdadeiros e que o trabalho impecável poderia ser um símbolo de exemplo e de que a justiça prevalece.

Sentaram-se ao redor da mesa. Ele na ponta e todos os sorrisos como plateia. Não se sabe por quanto tempo durou, mas cada frase, cada parte, cada sílaba soava-lhe como música, um rufar de louros e um soprar de aplausos.

Despesas com o aluguel em Paris pagas por um ano, a filial francesa nas suas mãos, 150% de aumento no salário, 10 passagens anuais para o Brasil, um carro, um cartão-combustível ilimitado, participação nos lucros e uma governanta bilíngue para cuidar da casa.

Tentou segurar o choro, mas não conseguiu, e viu que emocionou a todos lá, até o poderoso. Abriram um champanhe e saíram para almoçar. Ganhou o dia livre para começar a organizar a mudança, que seria em 15 dias.

Chegou em casa. Olhou o vazio e só assim viu a realidade. Não tinha para quem ligar e dividir a notícia. Saiu rapidamente de lá porque soube que levaria todo aquele nada para França. C’est la vie...  



segunda-feira, 26 de novembro de 2012

E O QUE ERA?

Estava perto demais. Nunca esteve tão próximo do cheiro da verdade. Já perdera a noção do tempo. Chegou a pensar que nascera dentro disso tudo, esquecera-se de quando começou, quando realmente esteve livre disso. Uma linha única de vida, sem divisões, nem matizes, nada que lhe diferenciasse. Nada.

Sabia que estava perto e que agora, mais do que nunca, não quereria estar em outro lugar, em outra situação, respirando outro ar. Um ar que não distinguia sucesso de fracasso, vitória de derrota. Uma mescla de excitação, desânimo, alegria e decepção iminentes.

Um novo sentimento acabara de existir para si, pois sentimentos aparecem e se criam. Nunca esteve tão perto. Não conseguiu precisar quantos metros havia naquele corredor. Passo a passo, seguia. Comedidos, medidos, quase parados. Quantos passos mais?

Sentiu um arrepio na espinha. Uma gota fria de suor a lhe escorrer pelas costas. Uma única gota, apesar do forte calor daquela noite chuvosa. Não precisava de todas as gotas que o céu mandava, uma só lhe bastava. Talvez não soubesse o que faria depois daquela noite.

Talvez toda razão de viver estivesse para terminar. Não se importava. Queria realmente acabar com aquilo. E parece que media quando, saboreando a transição do desconhecido para o realizado.

O preciso momento em que a primeira gota de água desce pela seca garganta. A primeira sensação quando a dor desaparece. E andava. Estava firme. Não acreditava. Acreditava. Não hesitou. Agora sim. Andou de novo. Olhava aos lados, mas sabia que o negrume apenas iluminado pelos raios nada lhe traria. Tudo o acompanhava. Agarrava-se-lhe à nuca e não o soltaria até saber o que o futuro o reservava.

Apesar do barulho da tempestade, o som inexistia, as batidas do coração não condiziam aos passos. A respiração ofegante. Os aplausos. O silêncio da derrota. Quem lhe faria companhia. Jorge ficou parado lá trás. Até quando. Quer terminar. Não o quer. Quer sim. Hesitação. Excitação. Controle.

Perdeu-o. Achou-o. Andou. Parou. Continuou. Até quando. Não poderia suportar. Poderia. Pensou que sim. Pensou que não. Uma luz! Era. Era sim. Um convite. A luz guia. A luz cega. Entorpece. Esclarece. Não seguia, mas o fazia. Um convite. Não o recusaria. Um gemido, sim, ouviu um gemido. Até quando. Quando acabar. Se acabar. E acabou...

sábado, 24 de novembro de 2012

A TODOS QUE ME LEEM!

Há exatos 3 meses, no dia 24 de agosto de 2012, depois de vários incentivos, comecei a escrever um blog. Um desafio postar coisas novas diariamente. E não tem sido uma tarefa fácil.

Como num período de experiência em uma empresa, depois de 91 textos e mais de 13 mil acessos – ameaças de torcedores adversários, declarações esquisitas - creio que a fase de contratação chegou.

Gostaria de agradecer a todos – e cada um sabe a quem me refiro - que se expõem aqui com comentários, aos que me falam pessoalmente ou via email ou pelas redes sociais, divulgando.

E não poderia deixar de fazer os agradecimentos especiais.

Ao mestre Lucas Amura, que desde que retomamos trabalhos vivia me aporrinhando para expor meus textos.

À Andréa Kogan, que disse: “Hora de renovar, Sméagol, e lembre-se, não queira mudar o mundo, publique o que você tem a dizer”.

À Fal, blogueira, que ministrou um curso essencial, do qual tirei coisas excelentes e que têm funcionado diariamente por aqui.

Ao comparsa Luiz Rezende, por todos os toques de diagramação e visualização dos textos.

À Luciana Penna, que me fez crer que eu tinha algo a agregar no mundo virtual.

E finalmente gostaria de agradecer a mim mesmo, porque vai ser árduo deixar isso atualizado assim lá no inferno, entre as aulas, as dicas em redes sociais e, ainda por cima, ter de viver.

Para terminar, o nome, talvez se o blog se chamasse CAZZO, seria mais coerente aos que convivem comigo. Mas prefiro falar que o OPS! me persegue e que ainda não tenho a mínima ideia do que escreverei amanhã!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  

terça-feira, 20 de novembro de 2012

QUEM COME CATARINA SABE O CU QUE TEM

Quem é homem sabe, quando se há caso novo, tão bom quanto o caso é contar com quem se tem se atracado. Dependendo de quem é a menina, às vezes, contar acaba sendo melhor ou – se só a fama deverá ser mantida – melhor o silêncio.

Mas naquele não, a menina era uma coisa de outro mundo. Quando fosse algo de uma noite só, era comum até ser documentado em celular etc. Quando a moça requeria algo mais cuidadoso, o simples relato já servia de confissão. Mas quando o trânsito parava por ela, os detalhes serviam de mesa redonda e melhores momentos, com direito a replay.

E foi esse jogão que aparecia na vida daquele homem. Não é sempre que se encontra algo daquele naipe. Linda, estonteante, digna de ser falada na íntegra, lance a lance, com entrevistas.

- Catarina de quatro é um arregaço!

Foi a frase do ano. A foto no Facebook entregava os louros ao cara, busto entre os demais. E tinha de ser exclusiva. Acabavam os amistosos e os treinos abertos. Agora era só decisão e treino a portas fechadas, que só eram abertas ao sortudo, que as abria depois aos amigos.

Cada sábado era uma nova posição, um novo movimento. E como no futebol, o bordão pegava e feio. Durante dois meses, bastava ver o sorridente, para a frase ser introduzida.

E naquele domingo, no futebol, ele não apareceu. Suspeitaram que a comemoração estava aumentando, sinal de que mais novidades entrariam em campo. E assim se repetiu no domingo próximo e nos dois outros também.

Tentaram celular, nada. Redes sociais, nada.

Até que num improvável encontro - na festa de um do grupo - apareceram  de mãos dadas. Ele feliz, ela deliciosamente linda. Apresentou orgulhoso, fez questão de fazer a acolhida dos amigos como algo único e tomou as bênçãos dos pais do aniversariante.

Roubaram a cena. Porém, por mais que soubesse ser invejado por todos, por mais que soubesse ter o Oscar daquele ano, tinha a certeza mais concreta que a própria felicidade, aprendeu que nunca se deve falar do rabo alheio, porque se olhasse agora ao dele, veria um verso alexandrino agarrado a suas costas:

- Catarina de quatro é um arregaço!
 
E nunca mais foram vistos.