terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

O MEU E O SEU POLENGUINHOS

Desde sempre, a moça era conhecida como fazedora de milagres. Não existia a palavra impossível a ela. Sempre lidou com o "provável" como clichê e com o "incrível" como lema. Tudo começou aos 4 anos, quando o pai - sem intenção alguma - disse à filha que ela não conseguiria dar banho no gato, porque todos já haviam tentado. E não é que a bandidinha, com jeito e talento, conseguiu não só o banho, conseguiu um banho de lambidas depois. E aqui a lenda começara.

Aos 11, quando a família toda entrou na estrada e o pneu furou, ninguém conseguira desparafusar aquela roda, o mundo viria abaixo se ela não o fizesse. O mundo não veio, apenas a chave de roda desceu com força aos pulos da menina nele.

Ou quando, aos 16, tomou para si o homem que ninguém conseguira, digno de estrelas de Hollywood, mas ela - não se sabe se pelo talento, pelo destino ou pela insistência, - acabou fazendo dele seu para o resto da vida.

E, hoje, quase 15 anos depois, e com a primeira e única filha de 3 anos, às portas do primeiro dia de aula, tinha a missão de fazer a primogênita não engrossar a estatística do choro. Cansou de ouvir as mães dizerem que era impossível não haver lágrimas. 10 entre 10 crianças choravam ou chorariam, a dela não, porque mais um milagre estaria para acontecer.

A dois meses das aulas, a mãe começou a estratégia. 

Primeiro, sentou a filha na cama, sentou-se no chão e, olho no olho, em tom assertivo, mas doce, teve uma longa conversa sobre a função de cada um na Terra. Em tom infantil, conseguiu que a menina entendesse que um pedaço de queijo poderia gerar várias fatias, e e elas poderiam ir para a pizza, para o lanche, mas que ainda assim continuariam sendo uma coisa só.

A 45 dias, comprou dois polenguinhos e disse à filha que, mesmo separados, eles pertenciam um ao outro. O que ficasse com a mãe seria da filha e vice-versa. Ao término do dia, ela pediria o poleguinho de volta, e este deveria estar bem cuidado e vice-versa. Foi o que aconteceu.

A um mês, disse à filha que ficaria com a vizinha por duas horas. Que sempre algo poderia acontecer, que a mãe poderia ter um imprevisto - porque imprevistos existem para provar que a vida é para os fortes - mas que o polenguinho de cada uma estaria sob os cuidados delas e que voltariam à dona no fim do período. E foi o que aconteceu. A menina, como uma adulta, ficou com a vizinha por duas horas, e a mãe, colada à parede, certificou-se de que o choro não veio.

A 15 dias das aulas, o teste mais difícil: deixar a filha por uma semana e por uma hora em cada dia na escola, como adaptação. A mãe levou a menina pela mão. Parou em frente do imponente URSINHO BRANCO, agachou-se buscando o olhar da filha, que sorriu, estendeu a mão, deu o polenguinho e pegou o da mãe. Elas se beijaram e a menina entrou.

Por 7 dias e por 7 horas, a filha devolveu o polenguinho intacto e sem lágrimas. Realmente a mãe calaria a boca de todos que a desafiaram.

Na manhã do primeiro dia de aula, a mãe sentou a menina na mesa e disse que agora seria o momento de confiança. Disse que não seria mais uma hora, as 6 horas deveriam ser encaradas da mesma forma. Enfatizou que a filha estava pronta. Que a mãe deveria reassumir o comando da rede de salão de beleza e que o polenguinho da filha estaria são e salvo ao término das tarefas.

Perguntou à filha se poderia prometer a mesma coisa, e ambas trocariam os queijos no fim do dia. A pequena sorriu e disse que sim. Depois do almoço, saíram do carro e caminharam de mãos dadas até o colégio. Ouvia-se o choro de muitos por lá, sinal de perigo para a mãe, que olhou e percebeu que a menina quase pulava até o local, em passos de amarelinha. Acalmou-se.

Pararam em frente ao colégio, e, em meio à choradeira, ela agachou-se e já encontrou uma menina sorridente com o polenguinho estendido e a outra mão pedindo o seu. A mãe sorriu. Entregou o queijo e tomou o da filha para si. E a menina entrou feliz e calma. Mais uma vez, ela conseguiu.

Era difícil explicar como entre tantas crianças que choravam havia uma devorando um suculento polenguinho, e como seria difícil também explicar por que aquela mulher, parada no farol, beijava e acariciava, entre urros de desespero e lágrimas, um outro suculento polenguinho...




terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

O FOCINHO DO PITBULL

Não fazia nem 5 meses que havia se aposentado de vez, e toda esforçada rotina que tinha conquistado estava para ser esquecida ou adiada por um tempo indeterminado. As sequelas do derrame foram cruéis e o homem de 61 anos se via naquela cama. Sem poder se mexer ou falar, forçava a, ao menos, trabalhar a mente, para que a paralisia não chegasse à sua razão.

Refez cautelosamente todo o seu itinerário de trás pra frente. O que protagonizara há um mês antes de cair nas sombras. 

Acabou de tomar café e leu toda notícia daquela quarta-feira morna. O tempo estava claro e os 21 graus eram o convite de que precisava para seguir em frente. Caminhou por dois quarteirões e saudou os mesmos rostos que procuravam as mesmas coisas. Parou na banca de jornais e encontrou os novos amigos e o velho jornaleiro de anos.

Esticou um pouco mais o caminho e deixou por último o que mais se gabava por conseguir. Diziam todos da vizinhança que aquele pitbull de nariz rosa e bico branco e bege era ameaça do bairro. Quando passou a primeira vez por ele, mesmo não o vendo por inteiro - já que o bicho colocava apenas o focinho por debaixo do portão de ferro - sentiu o mesmo medo propagado pelas ruas e quarteirões.

Ele parou e se admirou daquele tamanho de focinho e pareceu amigável. Calculou que o cão não conseguiria, por mais feroz que fosse, abocanhá-lo. Olhou aos lados e se sentiu desafiado. Esticou lentamente a mão e deixou que o focinho se acendesse. Segundos depois respondeu numa sonora e deliciosa lambida. Sorriram ambos, cada qual do seu lado. Gabou-se tanto do fato que ganhou do velho amigo jornaleiro um livro só de cães, clicado por Elliot Erwitt.

E assim seguiu a vida por quase 5 meses. Naquela quarta-feira, não conseguiu completar o passeio. A caminho da banca, tudo se apagou e, quando a luz voltou, estava numa cama de hospital e agora na de casa. O lado esquerdo não se mexia, parou junto ao mundo e às vontades. Estava na companhia diária da esposa e de uma enfermeira, cortesia da formação que dera aos filhos.

Voltou a ser criança e voltou a sonhar como elas. Desejou conhecer o mundo de volta. Desejou ter os caminhos debaixo de seus pés mais uma vez. Não pediu as responsabilidades do trabalho, mas queria o ócio justo que aprendeu a desenvolver.

Não conseguia mais ver TV, não conseguia ler o jornal e odiou quando leram a ele. Percebeu que a velocidade da informação era diferente às pessoas. E sentiu a angústia da prisão de seu próprio mundo. Não queria encarcerar-se a sete chaves, mas ali estava. Não teve motivos para sair dali, talvez nem quisesse.

E naquela tarde ouviu um burburinho ao longe. A enfermeira não estava e a esposa tampouco. Acordara fora do horário habitual. Parecia um choro, um uivo, algo que o chamava para fora. E era. Aguçou os ouvidos, porque tinha de aprender a desenvolver tal habilidade e escutou um ganido agudo e sentido, quase um pedido.

Sim, era o pitbull. Ele sabia. Num esforço descomunal, consegui livrar-se do lençol. Acordou todos os músculos e se jogou no chão. A dor não apareceu porque decidiu não abrir a porta a ela. Estava na sala e seguiu os ganidos, conseguiu perceber que estavam perto. E chegou até o portão, não era o mesmo portão de ferro, mas ali estava o mesmo focinho.

Esticou o braço e as lambidas vieram. Num esforço ainda maior, decidiu colocar o rosto e deixar-se beijar pela fera assustadora dali. E percebeu que enfim veria os olhos dele. Levantou a cabeça e olhou um olhar que nunca tinha visto e foi com esse gesto que levou para si a última lembrança de vida. 

A enfermeira não poderia explicar. Tinha ido apenas ao banheiro. A esposa também não deu justificativas ao ocorrido, mas havia um sorriso leve naquele rosto frio e, mais espantoso ainda, como Elliot Erwitt, que estava na estante, havia parado nas mãos frias daquele corpo inerte em cima da cama.


terça-feira, 20 de janeiro de 2015

AMIZADE VERDADEIRA

Sempre cresceu achando que os melhores amigos eram medidos durante o período de tristezas. Bastava a sombra aumentar que trariam a luz necessária para se seguir por ela. Seriam os primeiros a acender a tocha e estariam sempre por perto.

Não se pode querer um carrossel de melhores amigos, mas pode se escolher quem andará com você neles. E a moça trazia a menina debaixo de sua preferência quando caiu durante o recreio e abriu o joelho. Foi ela quem segurou sua mão enquanto a diretora passava o merthiolate. A partir daí, sempre ficaram juntas.

Naquele dia, anos depois, enquanto se encaminhava ao bar para dar a notícia, lembrou de todos os momentos ruins pelos quais passou. Quando a matemática não entrava em sua mente e a dedicada amiga passou horas mostrando quão possível eram os números.

Lembrou também que nem sempre um 42 seria o fim do mundo, percebeu que se amar como era seria a melhor forma de não desistir de si mesma, ainda que o 38 da amiga fosse um sonho ainda impossível. Assim mesmo achou divertido pedir dois números acima nas compras em conjunto.

E como esquecer o dia que descobriu, na noite de formatura, que o namoradinho preferia loiras. Borrou a maquiagem inteira e ficou rouca de tanto pedir à amiga para não perder o baile por causa de um romance infrutífero como aquele. Sorriu.

E daí vieram romances e mais romances frustrados. Lágrimas atrás de lágrimas. E a amiga sempre perto a enxugá-las. Sabia que não tinha o talento para aqueles 5 anos de namoro feliz que a dona do lenço protagonizava. Sorriu. 

Vieram 9 meses de olhos secos, nove meses de sorrisos, 9 meses apenas de alegrias. E ela deveria ser a primeira a saber. Chegou pontualmente como sempre e a amiga estava lá antes dela, como sempre. sorriram e se abraçaram. Logo após de escolhidas a bebida, o pedido de casamento foi revelado.

Os sorrisos da amiga se calaram imediatamente e os alertas apareceram on the rocks. insanidade casar em tão pouco tempo. Despesas inesperadas talvez. Nem se sabia se era realmente a pessoa ideal. Preocupações de uma amiga zelosa, atenta. 

As bebidas ficaram pela metade. O abraço foi mais contido e o sorriso da amiga não voltou não voltou mais, dera lugar à sisudez. Talvez não tenha percebido e ainda assim sorriu pela preocupação da meia-irmã. 

Estava tão feliz que não percebeu que o merthiolate, os lenços, os números menores e os amparos vinham sempre para se curar uma ferida. Estava tão feliz que não percebeu que era fácil apaziguar quando o oposto sofria. Estava tão feliz que não percebeu que, pela primeira vez, estava feliz e talvez nunca tenha percebido que sorrir um sorriso igual não é lá uma tarefa digna.

Porém, se caso desse algo errado, a amiga seria a primeira a secar-lhe as lágrimas...

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

O QUE VOCÊ ESTÁ ESPERANDO?

Talvez tinha 4 anos, quando se deparou com o primeiro desejo em sua vida, uma bicicleta. Ansiou por ela, perguntou à mãe o que deveria ser feito para conseguir uma. Ouviu atentamente. Daquele dia em diante, comeu todas as verduras, não deixou mais os brinquedos fora de lugar e até tolerou as provocações do mais velho. 

Na noite de Natal, ganhou uma bola e a frase "as melhores coisas da vida acontecem quando você menos espera". 5 meses depois, no aniversário a bicicleta, já esquecida, apareceu e ele sorriu.

Aos 12, ele precisava de uma bateria. Era o primeiro dos muitos ídolos à sua frente fazendo o convite. Foi direto ao pai e percebeu que as notas altas estavam lá, que as reclamações nunca mais vieram e que os tênis estavam enfileirados. 

A audição daquele ano passou, mas a outra não. E quando viu o pedal do bumbo em sua cama, pedalou até o fim do mundo de alegria e venceu a batalha das bandas naquele mesmo ano. "As melhores coisas da vida acontecem quando você menos espera".

Aos 18 procurou um estágio para financiar sua liberdade. Ganhar o mundo era um desafio mais difícil, nem a bateria muito menos a sumida bicicleta ajudariam. Passou nas três entrevistas e ficou entre os 3 melhores. Seria perfeita a vaga. Na dinâmica final, o curso de inglês não ajudou, porque o espanhol seria mais viável. Passou um semestre inteiro vindo da faculdade pra casa, porque tinha a maldita consciência de não gastar mais o dinheiro dos pais. 

6 meses depois, conseguiu uma bolsa, tinha se esquecido que concorria a ela, e sorriu como criança, pedalando nos pedais da bateria e da bicicleta. "As melhores coisas da vida acontecem quando você menos espera".

Estava com 30 anos, e a promoção para a filial de Londres seria um marco. O mais jovem gerente da empresa poderia romper barreiras. Nome forte. Trabalho impecável. Metas batidas. E naquela reunião, os 3 filhos da colega pesaram mais. 2 anos depois, o ainda solteiro, seguia para Nova Iorque. Mesmo com os 4 graus negativos, vibrou ao pisar no Soho. "As melhores coisas da vida acontecem quando você menos espera".

E por lá já estava há 8 meses, quando conheceu Melinda. A ítalo-americana estaria sem os pais no feriado de Ação de Graças. Ele conseguiu escapar mais cedo do trabalho na véspera do feriado e driblar os novaiorquinos loucos pelas calçadas e torcer para seu ônibus passar o quanto antes. Olhou para o relógio e pediu que ficasse lá por 5 minutos. Porém, assim que levantou o olhar, viu o gigante se dirigindo em sua direção.

Sorriu como nunca tivesse sorrido na vida, subia os degraus e escutou o lamento de muitos, já ali há uns 10 ou 15 minutos. Quando sentou, lembrou-se de tudo. Da bicicleta, da bateria, do estágio, da promoção e da moça, que esquentava o chocolate aos dois, teve uma conclusão definitiva quando viu o ônibus: "as melhores coisas acontecem quando se menos espera, mas quando acontecem quando se espera é muito mais interessante".


terça-feira, 6 de janeiro de 2015

LISTA DE PROMESSAS

Poderia entrar no clichê das promessas e da lista de início de ano, entretanto preferiu não cair nas armadilhas da vida, já que se trancou nas próprias arapucas e de lá teve de sair quando ninguém mais estava vendo. 

Sabia que a própria consciência sim, e dela não conseguiria fugir. Decidiu então prometer o que tinha certeza de que faria, só para ter certeza se o papel realmente remaria contra os próprios interesses.

Fumaria até tossir sangue. Comeria até verter entranhas. Beberia até vomitar a vida. Apaixonar-se-ia pelas pessoas erradas até o coração evaporar. E, pela primeira vez, seguiu à risca. 

A pessoa tinha o aroma de uma nota desafinada e exalava desilusão. Foi colocada para dentro de sua vida de modo rápido, sem pestanejar. Foram dois dias de loucura até descobrir que ela era casada, com dois filhos e um golden retriever. 

E o coração evaporou-se. 

Mesmo que precisasse do trabalho, não parou para contar as coações, as humilhações pelas quais andava diariamente. O aluguel não poderia atrasar. Não contou as horas que passou em silêncio com um lanche e as planilhas sempre erradas. Seria uma insanidade precisar o vaivém frenético dos prazos não cumpridos e nada compridos. Acabou perdendo o emprego.

Engoliu sapos até verter as entranhas.

A procura por uma recolocação aos 34 não era algo fácil. Foram incontáveis os currículos, as entrevistas e as promessas. Chegou próximo de um sonho, que esbarrou no espanhol largado no segundo módulo. Entrou em casa e percebeu que não teria o dinheiro do aluguel daquele mês. 

Bebeu até vomitar a própria vida.

Lembrou-se da mãe, que disse ser ajuda a tudo que pedisse. Correu até ela, chorando, e abriu o pulmão e a alma de uma vez só. Estava só, sem dinheiro nem sonhos. Teve  de escutar a comparação com os primos e os vizinhos cujas histórias de sucesso se esfumaçavam em sua frente.

E as fumou até tossir sangue. 

Sentiu-se o ser mais solitário do mundo, chegou a sentir ao mesmo tempo dó e orgulho de si. Soube que era capaz de seguir à risca tudo o que desejou fazer e percebeu que tinha um talento imenso à autossabotagem. E fez a única coisa que lhe cabia, abandonar-se. Quando as bagagens são grandes, algumas devem se perder pelo caminho. Largou-se como se larga um saco de arroz numa carga, que foi levada pra longe.

Chovia muito no dia seguinte, mas os pingos só acertaram as suas pegadas, dessa vez venceu e talvez a sorte começasse a mudar...


quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

NOITE DE PAZ

Não caberia aqui o clichê do Natal, mas não pude evitar em contar uma história que aconteceu por esses dias de dezembro. Não era Maria, entretanto estava grávida e prestes a ser mãe. Não era José nem carpinteiro, porém perambulava com a esposa, ou sei lá se fossem casados - porque viviam na rua - de um canto a outro. Sujos e sem banho há dias, ela temia parir naqueles dias, tudo ficaria mais difícil, se é que isso era possível.

Ele não, desejava ser pai num 25 de dezembro, "traria sorte, porque Deus abençoa quem nasce nesse dia e a nossa sorte mudaria", vivia dizendo enquanto revirava os lixos. Ela sonhava com um banho ao menos e pensava em como alimentar a criança depois que o seu leite - sabe-se lá em quais condições -  acabasse. 

E naquele 24 de dezembro, as ruas pareciam mais vazias e mais frias. Havia chovido, o que piorava as condições do lixo. Por sorte, passaram perto do bar cujo dono vivia a dar-lhes comida e o que viesse. E veio mais do que esfihas. Veio um panetone, dois torrones e até uma sidra. Eles sorriram e preferiram ficar embaixo de uma árvore pincelada por luzinhas. Decidiram que tinham a maior árvore de natal da cidade e por lá fariam sua ceia.

Rezaram porque era uma noite especial. Ficaram em silêncio, não se podia ouvir os pensamentos deles, mas parece que ela pediu um banho e ele mais sorte nessa vida, ainda que fosse injusto desdenhar daquele Bauducco, porém vivia imprecando contra a má sorte da vida. Nessa hora, um cachorro apareceu e salivou ante a qualquer coisa, que foi dividida.

A garoa cessou "Estamos com sorte", disse o rapaz tentando abrir a sidra. Ouviu-se um canto numa casa, embalavam qualquer melodia natalina. Desconheciam a letra, mas sabiam a melodia. Ele abriu a sidra e deixou que ela bebesse, ao menos um gole para celebrar aquela noite. Ela aceitou com a condição de ser apenas um. Havia ainda 4 esfihas para o dia seguinte, mas o panetone havia acabado e o cachorro se encarregava de raspar o papelão e tudo que estivesse por ali.

Ele dormiu, ela não, o cachorro sentou-se perto dela. Ela o acariciou e ele lambeu sua mão. Talvez pelo cheiro da carne, talvez pelo afeto, que diferença faria isso agora? Então ele pôs a cabeça nas pernas dela e dormiu. Ela sorriu e chorou. Odiava estar suja, odiava estar grávida porque odiaria parir outro mendigo. Perdeu as contas de quantas vezes pediu para o bebê morrer. Deus não a escutava há anos, por que agora?

Chorou porque se sentia injustiçada e não podia lutar contra tudo tendo de cuidar de alguém mais desprotegido ainda. Chorou por tudo e por saber que, ao sentir aquela dor, aquelas contrações, que o filho viria naquele instante. Berrou. O rapaz acordou num sobressalto já assustado, sabendo que era o momento de ter sorte. 

"Jesus, vamos chamar ele de Jesus", antes mesmo de prestar a primeira ajuda. Ela berrou de novo, o cachorro se assustou e ficou em pé, sem saber o que fazer. Sabia que tinha de parir ali, no meio da rua, com aquelas luzes a piscar agora. Sim. Um viatura policial, que parou e logo dois desceram ainda mais desesperados. Não nos cabe saber os procedimentos, porém a dupla ajudou muito e conseguiram trazer a criança ao mundo.

Não houve mais choro, não houve coisa alguma, o rapaz ficou mudo, o cachorro estava atrás da árvore, os policiais ficaram quietos e a mãe não balbuciou coisa alguma. Se era pra ser Jesus, ele viera com a missão cumprida, já com a vida completa, pois naquela noite nascia morto e talvez não ressuscitaria no terceiro dia.

Os rapazes não puderam falar. O pai jogou a imprecação de novo aos céus e a moça sorria por saber que, pelo menos uma vez, Deus poderia ter escutado suas preces, que naquela noite especial poderia haver uma ponta de esperança em seus pedidos...


segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

SCRIPT DE NATAL

Quando ratificaram, em julho, o convite para a noite de natal no novo apartamento, o casal jamais imaginaria que estariam mergulhados numa indiferença cinza. Todas as cores e promessas jamais poderiam cair no esquecimento. O abajur da sala estava sempre aceso, ele não se importava em dormir com a luz ali, contrastando ao escuro do quarto, com o livro pronto para ser lido por ela a qualquer instante.

Há semanas mal se falavam, mal se olhavam e nunca mais se tocaram. Nunca mais. Já não sabiam mais como era agir sem um nem outro. Acostumaram-se ao inverso e dividiam sempre a mesma luz. Já não sabiam mais como seguir por si. Mas a noite do dia 24 de dezembro se aproximava e restava a eles receber os 15 convidados entre pais, sogros e cunhados.

A troca de mensagens pelo grupo do whatsapp não trazia os dois simultaneamente. Ora, ela falava, horas depois ele respondia na interação. E foi assim, em silêncio, que arrumaram tudo. 

Na manhã do evento, eles se trombaram no corredor, e ela pediu para que tentasse, pelos pais e mães dos dois, agir como sempre agiram, como nunca mais agiram, com a promessa de arrumarem tudo assim que a última luz fosse apagada naquele dia. Ele concordou pelo respeito que um ser humano possa ter e seguiu à banca de frutas.

Ela não chorou durante as rabanadas e a farofa especial Não porque não tivesse mais lágrimas, mas porque não havia motivos para tal. Ele encontrou alguns amigos pelo bairro e sorriu como há dias não sorria e desejou que a noite fosse boa a todos e a si mesmo.

Ele chegou e foi preparar o chester, a pedido da sogra. Durante as pinceladas na ave, ela perguntou a  ele se se lembrava da noite que a mãe retirou do prato da nora a fatia mais farta. Eles riram e foi o momento mais suave entre o casal, desde começo de agosto.

A porta se abriu com um sorriso lindo e os olhos brilhando. O marido apareceu logo atrás, segurando a sacola da sogra, não sem antes beijar a esposa e esta devolver o gracejo afagando-lhe seu rosto. E assim o silêncio de meses era quebrado pelo som daquela noite

Entre um drinque e outro, eles trocaram carícias e sorrisos, além de copos e petiscos. Os sorrisos estavam por ali, em cada canto das luzes da árvore, em cada canto das luzes da casa. Antes da ceia, ele pediu a palavra, levantou-se e agradeceu a cada um que ali estava, sempre segurando a mão da esposa. Todos sorriram e ambos coraram.

A entrega dos presentes foi divertida, porque o piano ressoou lindo nas mãos do sogro dela e todos embalaram, afinados até, as canções de natal até acabar em Beatles ou Sinatra, que foi tema da dança do casal há 6 anos e requisitaram um replay todos de lá. E dançaram sem graça em passos quase desenfreados, em pisões quase evitados. E, ainda assim, na última estrofe acertaram o passo.

Aos poucos, o silêncio começou a tomar conta. Aos poucos, os passos foram cessando por ali e alguns mais resistentes ficavam ao redor da mesa, porque o melhor da festa sempre é falar sobre ela já com os pés descalços e as calças desabotoadas. Os cunhados até beberiam o café, entretanto perceberam que a mulher estava dormindo no colo do marido.

Eles decidiram sair de fininho e mandaram o rapaz não se levantar, apagaram as luzes da cozinha, da sala e saíram. Deixaram somente a luz do abajur ali. Ele olhou o rosto cansado da esposa e afastou uma mecha do cabelo que teimava em se emaranhar nos cílios dela. E se lembrou de toda a farsa daquela noite. 

Não mentiria se dissesse que achou interessante. Sem perceber, deu um beijo na bochecha dela. Ela sorriu. E nada mais foi dito a partir daquele momento nem se sabe o que aconteceu, porque a luz do abajur se apagou e isso não estava no script...