Não
eram irmãos, mas viviam como univitelinos. Desde a terceira série. E seguiram
assim até os 20 anos, quando um deles engravidou a namorada, de 17, e teve a
maturidade adiantada.
A
separação foi iminente. Responsabilidades diferentes, caminhos opostos. Mas
quis a vida que a esquina de ambos voltassem a se cruzar quase 20 anos depois.
O casado, agora com mais um, de 15, e a mais velha de 20, e o solteiro com
ninguém.
Numa
noite, na casa da família, estava o amigão do pai, finalmente haveria um rosto
para as várias histórias que circularam pelos cantos da casa. Não se sabe ao
certo qual foi o momento exato, mas quando a menina cruzou a sala, mais do que
o perfume entrou com ela, uma libido avassaladora tomou conta do tio.
Sorridente,
educada, parecia uma extensão do pai, formando quase que um trio de amigos. E assim
passou a noite, agradável, desejou ter para si uma cozinheira como aquela e uma
menina como aquela.
Viraram
amigos nas redes sociais. Os gostos eram os mesmos. As brincadeiras também.
Madura para a idade dela, imaturo para a idade dele. Par fatal. Quando perceberam,
conversavam mais os dois que os amigos. Quando perceberam, trocaram os números
dos celulares.
Um torpedo numa madrugada, um “durma bem”, despretensioso e atrevido terminou em “beijaria sua boca uma noite inteira”. Ficaram a madrugada inteira conversando por sms.
Por
acaso – pensemos assim – por acaso, o quarentão saiu de uma reunião perto da
faculdade da menina e a viu na rua. Ele parou, ela entrou, uma carona
despretensiosa. Mas a mão dela foi mais rápido e já estava na perna dele, que
acelerou e parou no primeiro Drive-in que lhe cruzou a janela, o Cumbuca.
Exatos
30 minutos por lá ficaram, e não se sabe o que fizeram porque a cortina estava
fechada. Eles saíram, ele a deixou em frente ao prédio e sumiu de lá. Uma
loucura. Ele estava sorrindo um sorriso besta, ela sorria outro bem mais encorajador.
O pior é que essas coisas ocorrem em duas ocasiões, uma como evento, outra quando se atribui uma narração. Mas aqui, ficaríamos com o ímpar.
Silêncio.
Mas vai explicar a gargalhada que a menina soltou quando, numa caminhada com o
pai e a mãe – no momento em que passavam pelo Drive-in, viu um bloco de concreto na
entrada e o selo da Anvisa interditando o local. Se os pais não desconfiaram,
ao menos o órgão de segurança tratou de pôr fim ao caso.



