terça-feira, 24 de março de 2015

A FACA DE MATAR GENTE

Num posto policial...


- Moço, vim fazer uma denúncia, a minha mãe tem uma faca de matar gente!

- O quê? - sorriu o oficial.

- A minha mãe tem uma faca de matar gente!

- Quantos anos você tem? 

- 4...

- Onde está sua mãe? 

- Ela está ali na padaria e eu disse que vinha aqui dar esse pirulito pra você.

- Então vamos até a padaria, eu levo você até lá antes que você se perca...

- Não! Você tem que acreditar em mim, ela mata gente todo dia! Ela amarra a pessoa e enfia aquela faca de matar gente no pescoço! Você tem de prender ela!

- Claro, claro, eu vou fazer isso assim que chegarmos à padaria, ok?

Na padaria...

- Senhora, esse aqui é seu filho?

- Sim, recebeu o pirulito dele? - perguntou sorrindo

- Claro, framboesa, meu preferido! - e piscou à criança.

- Você não disse que iria prender ela?

- Prender quem? - perguntou a mulher.

- Ah, sim. Seu filho disse que a senhora tem uma faca de matar gente. Disse que a senhora amarra a pessoa e enfia a faca nela...

- No pescoço! - corrigiu a criança, escondendo-se atrás da perna do oficial.

- Isso, no pescoço!

- Hahahaha - sorriu a mãe - Tenho uma faca imensa e, pra ele não mexer e se cortar, digo que é uma faca de matar gente. 

- Bom, espero que a senhora nunca mais mate ninguém, ok? Senão serei obrigado a prendê-la.

E saiu, deixando uma mãe constrangida e furiosa. Ela pegou a mão do menino e até o caminho de casa foi incisiva.

- Não fosse aquele maldito amarrado em casa, era você que iria pra debaixo da terra hoje!

quinta-feira, 19 de março de 2015

HISTÓRIAS DE CACHORROS

Quando se contam histórias de cachorros, a tendência é que a comicidade domine a narração. Como meu envolvimento com eles é quase diário, seja na rua, numa caminhada ou simplesmente num farol, tenho colecionado fatos inesquecíveis e cômicos.

Certa vez, quando morava em Guarulhos, eu me deslocava até a estação Armênia e lá pegava um ônibus. Pontualmente, às 22h45, ele saía. Pontualmente, havia um pipoqueiro com seu fiel amigo.

Até aqui, sem problemas, o que atraía a clientela era a performance do bicho. Propositadamente, o dono sintonizava o rádio numa estação evangélica, em que se ouvia uma pregação. E, a cada "Salve, Senhor!" que o pastor emitia no culto, o cão uivava, sem que depois o pipoqueiro emendasse, "é o cão, é o cão".

E já que falei de cães e metrô, uma das cenas mais bizarras que presenciei foi numa fila de pessoas para comprar bilhetes. No meio dela, havia um cachorro, que se sentava cada vez que a fila parava e andava cada vez que ela se movimentava.

Hilário ver todos rindo da civilidade do cão, que, por sinal, serviria de exemplo a alguns ogros que existem por aí. Não pude ver o que ele faria ao chegar no guichê, mas não me espantaria se ela pedisse um "múltiplo de 10", dos anos 90.

Ou ainda, na tão badalada e conhecida Embu das Artes, ver aqueles quadros horrendos na calçada, melhor ainda é ver um vira-lata gracioso chegar perto de um e, sem pudor algum, levantar a perna e dar o aval de sua crítica.

Deixei a minha preferida por último. A minha pug Mafalda era especialista em chinelos e tarada por eles. Costumava caminhar com ela todos os dias. E numa manhã de domingo ensolarado, passei em frente a uma casa, cujo dono estava sentado com os pés descalços e os chinelos à sua frente.

Como andava com meu ipod, entrava no meu vídeo-clipe e não me atinha ao que a danada fazia. Geralmente eu tinha de conter a ansiedade dela, que teimava em me puxar. Portanto ela sempre estava às minhas vistas.

Alguns metros depois de passar por aquele homem, na esquina, eu olho para ela e vi um pé de chinelo naquela boca nervosa. A sensação de vergonha e dúvida me assaltaram de imediato.

Olhei para trás e vi o homem vindo sorrindo em minha direção. Tive de me desculpar com ele, mas tenho certeza de que o descalço não ficou bravo, porque a bandida, ao vê-lo vindo, sentou-se e largou o chinelo no chão.

Seja uivando, seja comprando bilhetes de metrô, criticando um quadro ou roubando um chinelo delicioso, as histórias de cães convidam a mais outras, cães são anjos leais e creio que todos nós deveríamos ser mendigos nessa vida.




terça-feira, 17 de março de 2015

DANÇANDO COM A TIA FÁTIMA BERNARDES

Férias rima com viagem. Por mais que a sonoridade não encaixe, você vai concordar comigo e entender até o fim desse relato por que essa duas palavras resultam poesia. 

Com quase duas férias vencidas, o rapaz foi obrigado a sair em férias. Não lia, não tinha hobbies, restava a ele apenas o TV, já que a esposa não pôde seguir os mesmos passos com ele nem colocá-los para cima. Amava filmes, documentários, mas principalmente adorava os noticiários e os jornalistas.

E é aqui o ponto crucial desse relato. Herança genética do pai, que amava ver o jornal em vésperas de feriado só para se deleitar com a saída do paulistano - ou a tentativa de - para o litoral ou interior, desenvolveu essa predileção pelos noticiários televisivos. 

Sabia de cor nomes, horários, entrevistadores, tudo relacionado ao jornalismo. Jurava que não era um jornalista frustrado, mas amava tudo a respeito. Só restava a ele a expectativa de ver a competente global Fátima Bernardes e seu programa.

Imaginou documentários fabulosos, discussões maravilhosas, opiniões reveladoras, ainda que fosse na Globo, e por ser pisciano, cria em algo bom. Entregou-se a alguns afazeres e tentou não perder a programação inédita para si. E então, no horário marcado, deparou-se com a moça e seu programa. Sabia que a competência no jornalismo ou nos comentários honestos sobre futebol nas copas seriam uma ponte a um novo mito na televisão brasileira.

Já diria o clichê que a expectativa é uma faca de dois gumes: ou se comprova ou se decepciona! E aqui seu caminho rumou ao mais profundo e fétido itinerário ao inferno.

Jurou, jurou mesmo, que foram apenas 10 minutos que viu, e ficou completamente boquiaberto com a falta de dignidade que certas pessoas têm em suas escolhas. A bem-sucedida jornalista lhe aparece com traços da tia da Mooca. Com os grossos braços à mostra, tentando acompanhar uma moça que cantava um refrão cujas palavras "vou te pegar gostoso" se repetiam por várias e várias vezes.

Sentiu-se envergonhado pela moça, mãe de 3, e a viu longe de ser sombra do marido, que, por enquanto, mantém-se digno debaixo dos cabelos grisalhos. Jurou, de novo, que, ao saber que a jornalista teria um programa dela, mesmo sendo na Globo e pela manhã, foi inocente ao vislumbrar nela uma Oprah Winfrey.

Foi então que se imaginou em Barcelona, em Paris, em férias, talvez a imagem por lá fosse menos traumática. Decidiu que, se fosse ficar longe da Europa ou de NY nessas férias, ficaria longe também da TV aberta e da tia Fátima, de quem sentiu vergonha e que o fez sentir raiva de si mesmo por ter sido tão fraldinha. 

Em tempos de Tony Ramos e seu Friboi e de Fátima Bernardes dançando "gostoso", só lhe restava a lição de envelhecer de modo mais digno e de largar os noticiários para passar a roupa que havia recolhido do varal há 10 minutos.

terça-feira, 10 de março de 2015

A GANGORRA

João nasceu rico, em berço dourado e com clichês de Leblon. Filho e neto únicos, teve a sorte de avós ricos, pais milionários e ar-condicionado no quarto. Perdeu roupas até os 2 anos, porque não conseguiu usar todas e em troca da chupeta ganhou mil dólares na poupança.

Jorge nasceu pobre, no corredor de um hospital no extremo leste de alguma grande cidade. Caçula de 5 irmãos, não teve avós ou avôs, nem pai ou circulador de ar nas noites de verão. Ganhou dos irmãos roupas até 2 anos, porque eles também ganhavam dos vizinhos e da igreja. Em troca da chupeta, ganhou um pedaço de frango, o primeiro em 3 anos de vida.

João teve uma infância com jasmins, brinquedos e uma babá. Nunca ralou o joelho jogando bola na rua e adorava iogurte com frutas vermelhas pela manhã. Aprendeu a primeira música em inglês aos 7 e em francês aos 9. Tocava piano e era prodígio aos 12, quando deu o primeiro beijo numa filha de um embaixador.

Jorge teve uma infância com pés na rua. Tirou o primeiro tampão do dedão aos 5, mesmo impedido no futebol, e adorava o suco de laranja quente na hora da xepa, quando pegava as verduras descartadas. Viu um pandeiro pela primeira vez aos 9 e tomou seu primeiro soco aos 13, quando pegou na mão da menina cujo pretendente era irmão do dono da boca.

João teve uma adolescência maravilhosa. Completou os estudos na Suíça, fez faculdade na Alemanha e começou a namorar uma italiana. Voltou aos 24 anos para assumir a diretoria da empresa do pai. Aos 25, era pai de gêmeos e se mudara para o duplex na zona sul.

Jorge teve uma adolescência árdua. Conseguiu uma vaga no Senac e um estágio como mecânico de avião. Sonhava fazer uma faculdade, todas as noites, quando ninava a filha sem a mãe, que morreu no parto. Estava feliz porque começara seu curso de inglês e vibrou quando conseguiu guardar os primeiros 100 reais na poupança.

João fazia 45 anos em Paris, mesmo a empresa não passando por momentos bons, ainda assim conseguiu viajar de primeira classe. Os gêmeos não trabalhavam e viviam gastando o dinheiro do pai pelas ruas do Soho. Divorciou-se havia 5 anos e perdeu as duas casas no Guarujá e no Rio para a ex-esposa. Na volta da viagem, teve de demitir 50 funcionários, como contenção de custos e vender a mansão no Morumbi. Conseguiu alugar um flat nos Jardins.

Jorge fazia 45 anos com 50 mil reais na poupança. A filha estava no segundo ano em Direito, na São Francisco. Tomaram o primeiro pro-seco juntos há 5 anos, quando comemoraram a casa própria no centro-sul de SP. Estava encantado com o TV HD e dormiu feliz vendo em qualidade digital o primeiro filme que assistira no cinema, há 25 anos.

João perdeu a empresa por falta de administração. Estava vivendo da herança do pai, cujo montante se consumia rapidamente. Aos 55 anos, desejou que seus filhos estivessem perto, mas preferiram se virar pelos bares de NY, eram bons garçons e não escreveram no Natal daquele ano.

Jorge conseguiu se aposentar aos 55 anos. Estava com 70 mil reais na poupança e teimava em não aceitar os 2 mil reais mensais da filha, referência no Direito Tributário. Ela preferiu depositar a quantia direto na poupança do pai, que chorou como criança ao ver Roma e a Torre Eiffel e fez amizade com o garçom brasileiro daquele restaurante do Soho. Passou o Natal com os netos no apto. de 250m² em um bairro nobre e odiou caviar.

João estava no asilo, aos 70 anos. Só, sem luxo, mas digno, mantido pela caridade de uma sobrinha. Ainda tinha o Rolex como lembrança e lia o LE FIGARO para exercitar o francês. Soube naquele momento que não se vive do passado.

Jorge estava na fazenda da filha, aos 70 anos. Olhava aquela serra linda e via as netas a cavalo. Acenava a elas enquanto tentava treinar o inglês lendo SPEAK UP. Soube naquele momento que não se vive do passado.

terça-feira, 3 de março de 2015

REI LEÔNIDAS E O SORVETE NAPOLITANO

Por um desses mistérios da vida, o pai nunca o deixou tomar sorvete antes do almoço. Certa vez justificou dizendo que havia hora para os alimentos e que o doce só poderia ser consumido depois das 13h. Quase salivou feio, ao ver o vizinho, às 10h da manhã saboreando um de chocolate. Não aceitou um pedaço, porque sorvete não se divide, queria um inteiro para si.

Por obras do destino, o pai passou naquele mesmo instante vindo da farmácia e sorriu cumprimentando o garoto, que também ofereceu a ele, que recusou e emendou dizendo que aquela hora não era hora de sorvete. O porquê do menino teve a mesma justificativa do horário. E ambos ficaram nas dúvidas, porém o sedento preferiria ter uma companhia doce para as interrogações.

E ali ficou, emparelhado às lambidas do amigo e às interrogações e vontade. O sorvete acabou, a conversa também, entretanto agora seria uma questão de honra, desvendar por que não se podia tomar sorvete antes do almoço. Pesquisou no google, nada. Perguntou ao avô, porque não eram os mais velhos mais sábios? Nada.Talvez fosse uma superstição. Pesquisou a palavra primeiro e teve certeza de que alguma espécie de maldição pudesse ocorrer.

Semanas depois, quer por destino, por acaso ou por nada, o pai aparece entre as compras do mês com dois potes de sorvete. O menino viu e ficou atento. Seria uma provação? Seria um teste do pai? Seria aquilo alguma forma de evolução?

Fato é que o menino não tirava da cabeça aqueles dois potes. Poderia abrir quando quisesse, mas sabia que seria mais saboroso se consumido antes das 13h. Passou dias indo pra escola com a cabeça no freezer de casa. Justamente no horário da aula.

Talvez tenha sido na aula de História, quando aprendeu sobre a dedicação dos espartanos com a guerra e com o que acreditavam. E, naquele momento, decidiu assumir o papel de Leônidas e encarar o desafio. Sim. Num plano mirabolante, traçou a ação. Esperaria o momento entre a volta da missa e as preparações do almoço e abriria o napolitano, três sabores numa tacada só.

E naquele domingo mal comeu o chapeado, estava tenso. O paradigma seria quebrado e sentiu-se quebrando o sistema, mesmo que apenas quisesse adoçar a boca e a curiosidade. Passou 1h30 rezando durante a missa, pedindo forças e sorte para agir. 

Voltaram e o olhar vidrado estava prestes a agir. O pai e a mãe subiram para se trocar. O avô sentou na cadeira de couro e o espartano rumou à cozinha. Teria de ser rápido. Abriu o freezer, munido de uma concha. Precisaria de uma bola só. Pegou o sorvete, abriu-o e lentamente penetrou a concha de modo cirúrgico. Teve o cuidado de ficar atento aos passos e vozes no andar de cima e de pegar os três sabores numa fatiada só.

Conseguiu. Sorriu. Guardou o sorvete e correu para os fundos da casa. Que importa a violação precoce? Que importa ser descoberto? Nunca quis um crime perfeito, quis apenas o crime em si. Não conseguiu distinguir entre a vitória, a ousadia ou os sabores doces, mas teve a certeza de que, a cada lambida, a cada saborear, a medalha de ouro e o primeiro lugar estavam com ele.

Deve ter demorado por volta de 5 minutos entre o início do plano e a última lambida. Quando chegou à cozinha, um burburinho desencadeou o caos naquele domingo. Não se sabe a causa, que importava isso agora? Fato é que estava ainda com o canto da boca melado de creme enquanto o avô morria sentado, quase dormindo.

Não creu que ele o matara. Não creu que a superstição realmente existisse, sabia que nada fez de errado. Teve a certeza disso, porque, durante o velório da manhã quente daquela segunda-feira, perdeu a conta de quantos familiares estavam com um picolé nas mãos antes das 13h e ainda, como prêmio, ganhou da madrinha uma latinha de coca-cola com seu nome.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

O MEU E O SEU POLENGUINHOS

Desde sempre, a moça era conhecida como fazedora de milagres. Não existia a palavra impossível a ela. Sempre lidou com o "provável" como clichê e com o "incrível" como lema. Tudo começou aos 4 anos, quando o pai - sem intenção alguma - disse à filha que ela não conseguiria dar banho no gato, porque todos já haviam tentado. E não é que a bandidinha, com jeito e talento, conseguiu não só o banho, conseguiu um banho de lambidas depois. E aqui a lenda começara.

Aos 11, quando a família toda entrou na estrada e o pneu furou, ninguém conseguira desparafusar aquela roda, o mundo viria abaixo se ela não o fizesse. O mundo não veio, apenas a chave de roda desceu com força aos pulos da menina nele.

Ou quando, aos 16, tomou para si o homem que ninguém conseguira, digno de estrelas de Hollywood, mas ela - não se sabe se pelo talento, pelo destino ou pela insistência, - acabou fazendo dele seu para o resto da vida.

E, hoje, quase 15 anos depois, e com a primeira e única filha de 3 anos, às portas do primeiro dia de aula, tinha a missão de fazer a primogênita não engrossar a estatística do choro. Cansou de ouvir as mães dizerem que era impossível não haver lágrimas. 10 entre 10 crianças choravam ou chorariam, a dela não, porque mais um milagre estaria para acontecer.

A dois meses das aulas, a mãe começou a estratégia. 

Primeiro, sentou a filha na cama, sentou-se no chão e, olho no olho, em tom assertivo, mas doce, teve uma longa conversa sobre a função de cada um na Terra. Em tom infantil, conseguiu que a menina entendesse que um pedaço de queijo poderia gerar várias fatias, e e elas poderiam ir para a pizza, para o lanche, mas que ainda assim continuariam sendo uma coisa só.

A 45 dias, comprou dois polenguinhos e disse à filha que, mesmo separados, eles pertenciam um ao outro. O que ficasse com a mãe seria da filha e vice-versa. Ao término do dia, ela pediria o poleguinho de volta, e este deveria estar bem cuidado e vice-versa. Foi o que aconteceu.

A um mês, disse à filha que ficaria com a vizinha por duas horas. Que sempre algo poderia acontecer, que a mãe poderia ter um imprevisto - porque imprevistos existem para provar que a vida é para os fortes - mas que o polenguinho de cada uma estaria sob os cuidados delas e que voltariam à dona no fim do período. E foi o que aconteceu. A menina, como uma adulta, ficou com a vizinha por duas horas, e a mãe, colada à parede, certificou-se de que o choro não veio.

A 15 dias das aulas, o teste mais difícil: deixar a filha por uma semana e por uma hora em cada dia na escola, como adaptação. A mãe levou a menina pela mão. Parou em frente do imponente URSINHO BRANCO, agachou-se buscando o olhar da filha, que sorriu, estendeu a mão, deu o polenguinho e pegou o da mãe. Elas se beijaram e a menina entrou.

Por 7 dias e por 7 horas, a filha devolveu o polenguinho intacto e sem lágrimas. Realmente a mãe calaria a boca de todos que a desafiaram.

Na manhã do primeiro dia de aula, a mãe sentou a menina na mesa e disse que agora seria o momento de confiança. Disse que não seria mais uma hora, as 6 horas deveriam ser encaradas da mesma forma. Enfatizou que a filha estava pronta. Que a mãe deveria reassumir o comando da rede de salão de beleza e que o polenguinho da filha estaria são e salvo ao término das tarefas.

Perguntou à filha se poderia prometer a mesma coisa, e ambas trocariam os queijos no fim do dia. A pequena sorriu e disse que sim. Depois do almoço, saíram do carro e caminharam de mãos dadas até o colégio. Ouvia-se o choro de muitos por lá, sinal de perigo para a mãe, que olhou e percebeu que a menina quase pulava até o local, em passos de amarelinha. Acalmou-se.

Pararam em frente ao colégio, e, em meio à choradeira, ela agachou-se e já encontrou uma menina sorridente com o polenguinho estendido e a outra mão pedindo o seu. A mãe sorriu. Entregou o queijo e tomou o da filha para si. E a menina entrou feliz e calma. Mais uma vez, ela conseguiu.

Era difícil explicar como entre tantas crianças que choravam havia uma devorando um suculento polenguinho, e como seria difícil também explicar por que aquela mulher, parada no farol, beijava e acariciava, entre urros de desespero e lágrimas, um outro suculento polenguinho...




terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

O FOCINHO DO PITBULL

Não fazia nem 5 meses que havia se aposentado de vez, e toda esforçada rotina que tinha conquistado estava para ser esquecida ou adiada por um tempo indeterminado. As sequelas do derrame foram cruéis e o homem de 61 anos se via naquela cama. Sem poder se mexer ou falar, forçava a, ao menos, trabalhar a mente, para que a paralisia não chegasse à sua razão.

Refez cautelosamente todo o seu itinerário de trás pra frente. O que protagonizara há um mês antes de cair nas sombras. 

Acabou de tomar café e leu toda notícia daquela quarta-feira morna. O tempo estava claro e os 21 graus eram o convite de que precisava para seguir em frente. Caminhou por dois quarteirões e saudou os mesmos rostos que procuravam as mesmas coisas. Parou na banca de jornais e encontrou os novos amigos e o velho jornaleiro de anos.

Esticou um pouco mais o caminho e deixou por último o que mais se gabava por conseguir. Diziam todos da vizinhança que aquele pitbull de nariz rosa e bico branco e bege era ameaça do bairro. Quando passou a primeira vez por ele, mesmo não o vendo por inteiro - já que o bicho colocava apenas o focinho por debaixo do portão de ferro - sentiu o mesmo medo propagado pelas ruas e quarteirões.

Ele parou e se admirou daquele tamanho de focinho e pareceu amigável. Calculou que o cão não conseguiria, por mais feroz que fosse, abocanhá-lo. Olhou aos lados e se sentiu desafiado. Esticou lentamente a mão e deixou que o focinho se acendesse. Segundos depois respondeu numa sonora e deliciosa lambida. Sorriram ambos, cada qual do seu lado. Gabou-se tanto do fato que ganhou do velho amigo jornaleiro um livro só de cães, clicado por Elliot Erwitt.

E assim seguiu a vida por quase 5 meses. Naquela quarta-feira, não conseguiu completar o passeio. A caminho da banca, tudo se apagou e, quando a luz voltou, estava numa cama de hospital e agora na de casa. O lado esquerdo não se mexia, parou junto ao mundo e às vontades. Estava na companhia diária da esposa e de uma enfermeira, cortesia da formação que dera aos filhos.

Voltou a ser criança e voltou a sonhar como elas. Desejou conhecer o mundo de volta. Desejou ter os caminhos debaixo de seus pés mais uma vez. Não pediu as responsabilidades do trabalho, mas queria o ócio justo que aprendeu a desenvolver.

Não conseguia mais ver TV, não conseguia ler o jornal e odiou quando leram a ele. Percebeu que a velocidade da informação era diferente às pessoas. E sentiu a angústia da prisão de seu próprio mundo. Não queria encarcerar-se a sete chaves, mas ali estava. Não teve motivos para sair dali, talvez nem quisesse.

E naquela tarde ouviu um burburinho ao longe. A enfermeira não estava e a esposa tampouco. Acordara fora do horário habitual. Parecia um choro, um uivo, algo que o chamava para fora. E era. Aguçou os ouvidos, porque tinha de aprender a desenvolver tal habilidade e escutou um ganido agudo e sentido, quase um pedido.

Sim, era o pitbull. Ele sabia. Num esforço descomunal, consegui livrar-se do lençol. Acordou todos os músculos e se jogou no chão. A dor não apareceu porque decidiu não abrir a porta a ela. Estava na sala e seguiu os ganidos, conseguiu perceber que estavam perto. E chegou até o portão, não era o mesmo portão de ferro, mas ali estava o mesmo focinho.

Esticou o braço e as lambidas vieram. Num esforço ainda maior, decidiu colocar o rosto e deixar-se beijar pela fera assustadora dali. E percebeu que enfim veria os olhos dele. Levantou a cabeça e olhou um olhar que nunca tinha visto e foi com esse gesto que levou para si a última lembrança de vida. 

A enfermeira não poderia explicar. Tinha ido apenas ao banheiro. A esposa também não deu justificativas ao ocorrido, mas havia um sorriso leve naquele rosto frio e, mais espantoso ainda, como Elliot Erwitt, que estava na estante, havia parado nas mãos frias daquele corpo inerte em cima da cama.