domingo, 11 de maio de 2014

NADA TERMINA

Estava a menina a brincar com seus lápis coloridos e seus desenhos. Pintava qualquer coisa que estivesse ao redor do contorno. Quando a avó chegou e se ajoelhou na frente da neta.

Perguntou se tudo estava bem e se aquele desenho era algo importante. A menina sorriu e disse que era uma árvore, que era importante a todos, porque dava sombra, vida e beleza ao mundo.

A avó sorriu e disse que a menina também poderia ser árvore, que a sombra seria a ajuda a todos, que a beleza faria todos sorrirem e que a vida estaria com a garota para sempre.

E a neta disse que seria impossível ser árvore, não cresceria tanto nem teria galhos ou flores. Que nenhum passarinho pousaria nela. A não ser que as pétalas florescessem em seus cabelos.

E a avó sorriu e disse que as flores sempre podem aparecer dentro da cabeça, como ideias maravilhosas, e que os passarinhos poderiam ser pessoas, mesmo que não pousassem em seus galhos, estariam ao redor dela, e que, apesar de não ser tão alta como uma árvore, ela também cresceria linda.

A menina sorriu de novo e disse que aquele desenho era um presente à avó, que preferiu deixá-lo à neta para que terminasse.

A avó se levantou, beijou a testa da menina e saiu.

Logo após, a mãe apareceu e disse que aquele desenho era lindo. E a filha tratou logo de dizer tudo o que acabara de ouvir da avó, deixando a mãe boquiaberta. A pergunta veio em seguida, assim como a resposta.

E o sorriso poderia ter sido o fim de tudo, mas não. A filha saiu chorosa, com a mão na testa, e teve certeza de que a mãe e a neta teriam sido grandes amigas.

terça-feira, 6 de maio de 2014

SEMPRE ESQUEÇA O GUARDA-CHUVA

E lá se vai mais um dia. O rapaz se levantou como se levantaria num dia de sol ou num dia de chuva. Depois do banho, ligou o TV e acompanhou os noticiários como no dia anterior. O café ficou pronto no mesmo tempo e na mesma medida que de anos atrás. Chovia forte naquela manhã.

Enquanto ouvia algo no TV, tomava seu café e olhava as redes sociais. Deveria ter sorrido com todas as saudações do sucesso na empresa. Invejado, inspirador, exemplo de dedicação e talento. Mas não sorriu, preferiu o sanduíche. Chovia forte naquela manhã.

Em 15 minutos, deveria ter respondido educadamente aos dois emails recebidos da diretoria e da presidência, incluindo o da matriz em Chicago, porém preferiu se despedir do cão, dando um beijo no seu focinho. Pegou as 10 pastas que levaria aos 10 da reunião naquele encontro das 9h30, conferiu o conteúdo, ratificando que a campanha tinha rendido 4 vezes mais a expectativa da agência, e saiu. Chovia forte naquela manhã.

Pegou o carro na garagem e cumprimentou como sempre o porteiro, saudando-o com um bom-dia tímido, mas determinado. Gostava do olhar do senhor, sofrido e profundo, forte e único. Não quis ouvir a sua entrevista que iria ao ar em poucos minutos, preferiu Glenn Müller, pois se lembrava do pai, que teria orgulho do filho agora por ter atingido um topo inimaginável na família, mesmo que ninguém entendesse direito o que realmente o rapaz fazia. Chovia forte naquela manhã.

Parou na sua vaga de sempre e os sorrisos dos guardas eram mais largos, mesmo que o time de um deles estivesse mal no campeonato, pensou que aquela alegria não deveria ser tão sincera assim. E, ignorando tamanha filosofia, compartilhou do momento devolvendo algo não tão expansivo, porém simpático e sereno. Chovia forte naquela manhã.

Ao entrar, foi aplaudido de pé por todos que o conheciam e por nem todos que conhecia. Assustou-se, do fundo do coração, preferiria como em dias anteriores, preferiria seguir até sua sala, cumprimentar como de costume quem sempre olhou para ele, não quem o olhava por uma ação. Soube que sempre teve seu valor, o resultado não mudava em nada o que sempre foi. Chovia forte naquela manhã.

Entrou na sala de reunião antes do previsto, porque havia uma comissão de senhores engravatados e sorridentes que pediram para chamá-lo antes mesmo de a reunião começar. Foi abraçado por quem nunca o viu, foi cumprimentado por nomes que jamais passaram por seus olhos, foi louvado por pessoas que jamais dividiriam o amendoim do happy-hour. Chovia forte naquela manhã.

Depois de os ânimos se acalmarem. O presidente pediu a palavra e impediu que o rapaz se sentasse, manteve-o colado junto a si, sombra a sombra aos lucros, passo a passo ao dinheiro, face a face com uma pessoa que precisou que alguém explicasse o que o rapaz fez. Um discurso empolgado, quase convincente. Sentou-se, depois de pedir aplausos mais uma vez, e deixou que o talento se explicasse. Chovia forte naquela manhã.

Antes de falar, aproximou-se até a larga janela do 3º andar. Não era tão alto, entretanto podia ver os pingos descerem rente ao vidro e sumirem antes que tocassem o chão. E foi nesse itinerário que avistou os carros lá embaixo. Avistou os pedestres, muitos deles com seus guarda-chuvas. Na calçada do outro lado da rua, viu uma moça, a única sem guarda-chuva, a única que teimou, sabe-se lá por quê, em olhar para cima. Os olhares se cruzaram. Parece que ela sorriu a ele. E então fez a única coisa que deveria fazer naquele instante, saiu da sala, pegou seu guarda-chuva e foi ao encontro dela.

Não saberemos jamais se era o amor da vida dele, não saberemos jamais se conversaram. Não saberemos jamais o que os senhores engravatados pensaram, porque ele não voltou à reunião.  O que se podia ter certeza é que ele teve de sair e que chovia forte naquela manhã.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

O NASCIMENTO DA MALDADE

Não deveria haver uma explicação tão lógica, já que esta, em se tratando de sentimentos, é totalmente desprovida de razão e dos conhecimentos científicos. Mas quis o destino que a menina se apegasse demais ao pai. Desde muito nova, era ele que a acalmava, era no colo dele que ela se encontrava, era o rosto dele que ela procurava.

Inversamente proporcional, a menina tinha uma predileção asquerosa pela mãe. Se tudo funcionava com o homem, com a mulher servia do oposto. Não eram raros os momentos em que passava o dia todo dormindo, abrindo os olhos apenas para abrir a boca, seja pra chorar ou pra comer. Era com a presença dele que ela se apaziguava.

Aos 3 anos, ela tomou contato com a morte, pela primeira vez, soube que as pessoas se igualavam às coisas, que também podiam sumir pra sempre. Curiosa, foi com a perda da avó e ao Cristo no quadro, que a mãe, mulher odiosa e nojenta, falava baixo.

Naquele mesmo dia, perguntou ao herói o que tanto aquela mulher fazia. Soube então que a figura servia para realizar pedidos. Se realmente era tão bom quanto o pai garantiu, e o pai era algo maior que a figura, ela não titubeou. Por dias e noites, assim que pudesse, ela se ajoelhava e pedia para que a mãe fosse morta, para que ela fosse perdida.

Bastava um descuido da mulher, lá estava a menina em pé, de olhos colados nos azuis do Homem, pedindo o improvável, o lógico e o sensato. Não percebia o passar dos dias ou das horas, não percebia que cada vez mais suas mãozinhas podiam já tocar o quadro. Foram dois anos assim, até que, numa tarde de sábado, um acidente de carro levou a mulher dela.

No velório, ela se acabava de chorar, mas era a alegria de saber que agora eram somente ela e o pai, como sempre desejou. Feliz, feliz, feliz. Até que o pai apareceu, meses depois, com algo mais nojento do que a mãe. Não podia ser, aquilo não poderia ter acontecido.

A raiva daquela menina de 5 anos foi furiosa e se sentiu traída. Traída. Só havia uma coisa a ser feita, matar aquele Homem. Sim, traidor. E, se assim fosse, dobraria o número de dias, dobraria o ódio, dobraria as horas, dobraria os pedidos, perdeu a conta de quantas vezes olhou naqueles olhos azuis e desejou: “morra, morra, morra!!!”.

Até que um dia, cerca de um mês, na volta do colégio, ela ignorou, como sempre, a madrasta e foi direto ao quarto das orações. Quando lá se deparou com algo que a deixaria paralisada. Sim, não havia mais quadro algum. Nada. No lugar, havia um Cristo pregado nela. Sim, ela O reconheceu pelo olhar. Ela viu o sangue das mãos e dos pés e teve certeza de que estava consumado.

No leite morno daquela tarde, entre um gole e outro, não cabia em si. Nunca aquele sabor do chocolate quente fora tão saboroso quanto saber que a força do pensamento podia tudo, até mesmo matar Deus. 

terça-feira, 15 de abril de 2014

A CASA CAIU...

A prova do exame da ordem começaria às 13h, e a moça passou três meses debruçada nos livros. Naquela manhã, já tinha separado caneta azul, lápis e borracha. Quando separava os dois passes do metrô, o telefone toca. O namorado, solícito que só, conseguiu convencer o avô a emprestar o carro para levá-la.

Por mais que a torcida às vésperas de um teste tão importante testava também quem realmente estava com ela, a menina tinha em mente ir só, sair com duas horas de antecedência, chegar ao local uma hora antes e se ambientar aos movimentos gigantescos de todos os iminentes bacharéis que levariam ansiedades maiores que as leis.

E o namorado convenceu-a de que descansar por mais uma hora seria essencial a ela e que, num domingo, em 20 minutos ela estaria por lá e lhe restariam ainda uns 40 minutos para preces e uma última olhada nos artigos. O amor faz coisas que derrubariam qualquer incredulidade.

Depois de 20 minutos de “não precisa” e “faço questão”, ele a convenceu. Pontualmente estava na porta da casa da menina, que sorriu um sorriso amarelo, tenso, desconfiado. O Chevette 72 do avô era lindo, estava inteiro. E o rapaz sorriu de volta um sorriso iluminado.

Ela entrou, beijou-o e disse um “vamos logo” tão suave que passou desapercebido por ali. Em poucos minutos, estavam na avenida principal, e, com o trânsito livre, mais 15 e o local acolheria mais uma ansiosa. Não se sabe ao certo em que trecho o carro engasgou e morreu no farol. Também não se soube ao certo o momento exato em que ele recuperou o motor e o sorriso do motorista.

Ela mal olhou a ele e suspirou rezando. Talvez tenha sido no trecho “e livrai-nos do mal”, quando o carro engasgou de vez, a 10 km do local. No meio da avenida, no meio do nada. Talvez tenha sido um sonho, talvez tenha sido um pesadelo, e era, realmente era real. O carro pifou.

Ela começou a chorar. Ele saiu desesperado, abriu o capô a nada, porque não sabia o que fazer. Ela saiu urrando do carro e pedindo para uma boa alma parar. 40 minutos para a prova. O celular dela estava em casa, o dele não trazia números de quem os ajudasse.

Ela acenava como louca, mas ninguém parava. Ela berrava que tinha de fazer o exame, mas a frase não era completada, os 80km permitidos na via não deixavam que mais de duas palavras fossem escutadas. E se fossem, a maioria que passava por lá estava a caminho da prova, não tinham tempo a perder.

Ele tentava consolá-la, ela urrava com ele palavras inaudíveis, mas houve que jurasse que se podiam escutar coisas como “ÓDIO” ou “METRÔ” ou até “NÃO QUERIA”. 20 minutos, e o carro pegou. Ela se calou, eles entraram e andaram por mais 4 km, quando o carro parou de novo.

Faltavam 6 km e 10 minutos, e a prova já era. Ele tentou abraçá-la, mas levou um tapa no rosto que o desconsertou de vergonha e culpa. O guincho chegou uma hora depois. Os olhos da menina estavam inchados, bem mais que o rosto do namorado.

Não se sabe ao certo em que momento souberam do desastre. Sim, nada poderia salvar o relacionamento, a não ser aquela explosão. Sim, com duas horas de prova, um vazamento de gás e um fósforo qualquer colocou o prédio da faculdade abaixo. O mesmo prédio em que a namorada faria a prova.

Comoção, pois é, não só o namoro estava salvo, como ele se transformou no herói da tarde, a vida da menina fora poupada pelo Chevette 72 do avô do rapaz. As vítimas do acidente? Continuavam no mesmo local, há duas horas, fazendo o exame, e o rosto ainda ardia depois de ter cochilado no caminho de volta.

 

 

terça-feira, 8 de abril de 2014

QUEM TIVER OUVIDOS...

Era dessas religiões católicas ferrenhas, uma linha ortodoxa cascuda, daquelas que jejuam na quaresma e sangram na Sexta da Paixão. O rapaz cresceu vendo isso e achava natural tudo aquilo.

Rezava todas as noites com os pais, tinha o terço no pulso. Não se incomodava de não pensar, amar Cristo era o maior dos amores mesmo que não soubesse por quê. Cresceu com a missão de amar, e decidiu amar a qualquer jeito, mesmo que não soubesse se era genuíno. Viu-se líder nato.

Aceitou a liderança imposta. Aceitou tanto que em algum momento pelo caminho, tornou-se líder de todos, menos de si mesmo. Se Cristo largou de Si, por que não ele?
 
E havia a estreia daquela peça, um musical que sugeria um relacionamento mais do que afetivo entre Jesus Cristo e Maria Madalena. A comunidade ecumênica do jovem se indignou e sugeriu um protesto pacífico em todas as apresentações.

De preto e com um capuz tampando os rostos, ficavam entre o público nas bilheterias entoando hinos católicos, rezando ave-marias e pais-nossos fervorosamente, entre discursos moralistas.

Um grupo de 50 pessoas estava por lá, uns tocando flautas, outros trombones, bumbos, até uma gaita de fole soprava por ali. As palavras de amor a Cristo de respeito ao Nazareno iam de encontro à proposta amena e despretensiosa do musical.

Não houve que os criticasse, não houve quem os apoiasse, havia apenas uma democracia contida e pacífica, liderada também pelo rapaz, que também sugeriu encerrar a manifestação 15 minutos antes, porque haveria ninguém mais por lá, e o líder se fazia presente mais uma vez.

E assim, por 1h30, ficavam diante do teatro mostrando toda a indignação, todo o inconformismo e, sabe-se lá por quê, toda a revolta ante a manifestação da arte.

Quando os primeiros acordes da peça começavam, o grupo não mais estava lá. Cada qual seguia seu caminho, uns de metrô, outros de ônibus. Iam pra casa com a sensação do dever cumprido. Em paz com o Senhor, em paz com sua religião, em paz com sua consciência.

Uns dormiam já, outros rezavam uma novena, alguns liam a Bíblia. E ainda havia quem preferisse tocar naquele musical. E dava pra ver seu talento, único, magistral. Um piano ímpar, colossal, que liderava as palmas e a arte daquela peça. Quando se é líder, seja o ambiente que for, se é líder em qualquer ambiente, porque, em algum momento também, decidiu ouvir a si mesmo.

 


 

 

terça-feira, 18 de março de 2014

SONHO INTERROMPIDO

Não tinha reparado que havia 3 em seu encalço. Era tarde e a única coisa que passava pela mente era chegar em casa depois de mais uma jornada inteira de trabalho e outras 4h fazendo um extra como segurança numa loja de calçados. Pai honrado, oficial bravo e corajoso, mesmo que experiente, não se atentou a isso, a eles.

Teve a impressão de ser seguido quando virou a esquina e sentiu os passos apertarem às suas costas. Parou. A farda escondida na mochila poderia ser um passaporte ao inferno. Rodou a cabeça ao ombro direito e notou os três vindos a passos rápidos. Não titubeou.

Saiu em disparada, tomou o fôlego do cansaço de mais de 12h de trabalho e voltou aos tempos da academia da polícia. Por instantes, lembrou-se do amigo, morto há 3 anos, numa mesma emboscada. O mesmo colega que o acompanhava nas corridas pela pista falando: “mais uma vez, criança, mais uma vez!”.

Naquela época, 22 anos atrás, era fácil segurar os joelhos jovens. Corriam com ele não só a esperança de uma carreira promissora e um futuro seguro, corriam com ele a fome da mãe e das irmãs pequenas, o choro da família pelos azares que muitas vezes traz uma só justificativa: a vida.

De repente, tudo isso estava de volta. Jurou para si mesmo que não morreria naquela emboscada. Jurou para si mesmo, enquanto corria com o trio louco em sua sombra, que todas as corridas foram vencidas e aquela seria mais uma. Uma curva, uma segunda, um trajeto longo, outra curva.

O peso dos joelhos, o passado e a estabilidade da profissão não eram incentivos assim tão competentes. Sem contar a mochila com a farda, o coturno e outras coisas que daqui não se poderia revelar. Estava cansando. O excelente corredor a cada metro perdia outro para os três.  Passo a passo, mais perto, mais perto.

Até que a quarta curva chegou depois que ele tropeçou. O grupo chegou chutando tudo, mochila, pernas, costelas e o rosto do oficial. Seguiram-se minutos de murros, cuspidas e pontapés. Ele tentou se proteger, até que as sessões acabaram. Uma arma apareceu em sua cabeça. E não adiantou ele clamar pela vida, trazendo a filha pequena como justificativa.

Parece que ela tinha uns 4 anos, mas a frase não se concluiu e o tiro o calou para sempre. Morria o oficial. Morria o pai, excelente profissional, voltando de uma jornada de 12h de trabalho. Morto por 3 malditos, três sombras que lhe tiraram a vida.

No cemitério, honras de herói, foi enterrado fardado, com a mesma farda que estava na mochila. Apenas a insígnia do nome não estava lá, não estava acima do bolso direito da camisa. Deve ter ficado pelo caminho, ninguém sabia onde pudesse estar.

Talvez ficara no chão, talvez tenha caído e os bandidos tenham sumido com ela ou talvez fora a única coisa que a menina de 9 anos, estuprada na tarde anterior, conseguiu como lembrança depois de escutar: "mais uma vez, criança, mais uma vez"...  

 

quarta-feira, 5 de março de 2014

MEU TRAUMA DE PROVADORES...

Quando um menino está na barriga da mãe, jamais pode pensar quais aventuras o esperam, quais experiências farão sombra a ele, viagens e coisas surreais: mulheres. E já começamos com a mais ensandecida delas, nossas mães. Só quem é homem e teve mãe sabe o que é isso. Elas podem nos moldar, elas podem nos controlar, ficar para sempre em nossas mentes, elas podem nos amedrontar, querem saber aonde vamos, com quem estamos.

Agora, um minuto. Perceberam que mães, namoradas e esposas são iguais, os exemplos acima são genéricos, eles se encaixam em qualquer título. Já começamos com um estágio e com certeza somos péssimos, péssimos. Se todos têm uma história sobre mulheres, colocar “mães” e “embaraçoso” na mesma linha, ainda que não haja rima, são café e leite, pão e manteiga.

Aqui não entrarão situações em que você está no meio do futebol, e ela aparece com o Nescau batido ou quando o chama de apelidos caseiros na frente de todos. Elas podem ser eternas, colocarem traumas perdulários. Dentre muitas coisas que acontecerão aqui, apenas alguns controles serão ditos. O dia em que fiquei TRAUMATIZADO POR PROVADORES DE ROUPAS...

Por razões que não cabem aqui, estavam os 4 a caminho de calças ao caçula. A mãe, os gêmeos e o mais velho. São raras as vezes em que podemos pontuar o início de um trauma, aproveitemos. Quando se fala de trauma, já não bastasse o fato em si, mas há níveis e níveis bem consideráveis. Pergunta: se uma pessoa é sã, possui todos os movimentos do corpo, por que alguém tem de ajudar outrem? E por que tem de entrar no mesmo provador? Pois bem, justificativas que caem por terra ante uma mulher, ante uma mãe.

E lá estavam os 4, dois dentro e dois fora. Depois de ter de escolher o que o filho vestiria e do bico do caçula, a embaraçosa situação ainda mal começara. Nos anos 80, era comum haver bermudas com sunga, sim, uma espécie de cueca acoplada. Quem usaria duas cuecas, tecnicamente? Ninguém. Quem embaraçaria outra pessoa? Silêncio. Assim que o caçula, de 9 anos, teve de tirar o calção na frente da mãe  - embaraço – ela não titubeou: “Você está sem cueca?!”.

A pergunta retumbou como numa caverna, só que nela havia muitas pessoas. Acostumados com o tom da voz, os irmãos se perderam em risos como todos que lá estavam. Uma mescla de dor, vergonha e ódio tomaram conta do menino. E quem disse que adiantou o pimpolho mostrar que não era necessário usar uma cueca. Nada. Mas sempre pode piorar. A calça veio, e ele queria sumir de lá. Assim que a vestiu, disse que estava ótima e pronto. Mas não. O rastreador estava por lá. “Espere! Veja isso!” - e agarrou no cavalo folgado da calça.

E abriu a cortina do provador e trouxe o garoto para fora. Não bastava colocá-lo no centro das atenções, ela precisava constatar que estava certa. Chamou os irmãos e perguntou se aquilo estava bom. Como se os outros dois tivessem coragem de apoiar o humilhado. E assim, estavam os dois, a uns vinte passos do espelho, no meio da loja. Uma mãe com a mão no cavalo da calça do menino, chacoalhando violentamente para frente e para trás, repetindo num sincronismo sádico: “O-lha is-so a-qui!”.

A justificativa de se gastar com algo que não seria útil poderia deixar a mulher um tanto quanto contrariada. E pior disso tudo, os primeiros movimentos pélvicos do rapaz foram provocados pela mãe.  E já que a história foi invocada, a versão que se tem como fato foi mostrada. A calça foi trocada, e a vergonha, consumada.