quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

AMOR...

Todo ser humano nasce com a capacidade de amar. Seja o amor por alguém, por algo, por um animal, independe, todos sabem amar.

Não existe um jeito de amar, existe o amor em si.

E eles se encontraram, numa mesma frequência, numa mesma química. Ele adorando falar, ela adorando fazer.

Pode-se dizer que amor é atitude, porém há quem discorde, ou melhor, complemente, dizendo que amor também é palavra. Porque a palavra alimenta.

Tinham tudo, o tempo certo, o tom exato e a cor equilibrada. Mas quando e se a dúvida aparecia, um reparava que ela falava de menos e a outra reparava que ele falava de mais.

E, às vezes, um reparava que ela agia de mais e a outra reparava que ele agia de menos. Um estudando o outro.

Quando se ama, não há que se entender, há que se sentir, porque a razão aparece em livros, não no beijo.

E o ser humano muitas vezes se dá o direito à dúvida e, dependendo de quão coeso seja o sentimento, o genuíno sobrevive sempre.

Mas não há aqui um tratado de relacionamentos, há um dia de chuva, numa tarde fria.

Não se sabe precisar quem sentiu primeiro, fato é que naquele momento, ela apareceu na porta do quarto, enquanto ele lia. Ela chegou bem perto e disse:

- Eu amo você.

Ele sorriu, olhou-a de uma forma tão terna e plena que o sorriso disse mais que todas as vezes que a boca o fez. Depois, ele beijou-lhe os olhos, abraçou-a e massageou-lhe os pés.

Não se sabe se ela voltou a falar aquilo de novo ou se a massagem se repetiu, ambos, depois daquela tarde, ratificaram que aquilo tudo seria para sempre.


quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

UMA TARTARUGA, UMA RODOVIA E UM SONHO

Uma tartaruga. Desesperada para saber o que havia do outro lado da rodovia. Nascia para algo maior. Mesmo que não soubesse o que encontraria, mas sabia que ao menos aquele apito que vinha de longe poderia ser algo chamativo.

O que se ouvia apenas, além dos carros que rapidamente cruzavam os olhos semicerrados do réptil, era o nada. Ah, aquele apito, o que traria aquele apito? Não conhecia Graciliano, muito menos o Mutum, mas sabia que havia algo melhor longe dali.

Havia algo a romper tanto quanto a própria morbidez, aquela rodovia, aqueles veículos. Carros, caminhões, motos. Se Deus havia dado a ela a paciência nos movimentos, tinha de colocar os neurônios a se prevalecerem disso. Sim. Um tai chi chuan ao cérebro. Tinha tempo pra isso.

Ficava olhando o vaivém frenético dos carros. Nem se atrevia a tentar acompanhar com olhos, porque sempre aparecia outro. Não cabe aqui precisar quantas semanas se passaram, cabe ressaltar que o exercício poderia dar resultado. E aquele apito, o apito daquele trem.

E sabe-se lá qual foi o exato momento que a luz atingiu sua lenta e comedida inteligência. Isso: havia um espaço entre um veículo e outro. E, dias depois, percebeu que com o sol alto, o tráfego era maior e que lua trazia bem menos barulhos. Decidiu não pensar como pegar o apito, porque seria algo mais ousado, preferiu se concentrar em como atravessar sem ser pega.

Algumas semanas depois, teve a certeza de que à noite o intervalo entre um carro e outro era de 10 minutos. Informação interessante, porque conferiu esse tempo por semanas. Tentava se concentrar em não se desconcentrar a cada assovio metálico daquele trem. Caberia agora saber quanto demoraria para cruzar a pista. Isso. Medir seus passos, ainda que tivesse que ganhar mais dias para tal.

Na noite anterior, ela ensaiou. Viu que em dez minutos poderia cruzar tranquilamente a rodovia. Sentiu a delícia do novo. Sabia que todos os caminhos a levariam àquele apito. E se tartaruga sorrisse, ela sorria naquela noite.

Tomou ar e decidiu que o próximo carro apareceria em um minuto e seria o abre-alas para ir a campo. E o veículo passou. Apertou seus olhos e foi em frente, lenta e corajosamente, ela seguiu triunfante, gloriosa, colossal. E em menos de dez minutos cruzara seu caminho e sentira o bafo rente de um imenso caminhão a esquentar suas pegadas.

E se tartaruga pudesse gargalhar, ela o faria agora. Conseguiu. Orgulhosa de si mesmo. O apito mais próximo, uma nova etapa mais próxima. Não havia outra coisa a se fazer, seguir em frente. E o fez. Grandiosa, imensa, entretanto bem menor que o caminhão que a acertara, pista dupla tem dessas coisas.        

 

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

COMO ACABAR COM UMA AMIZADE USANDO HIPOGLÓS

Quanto mais se vive, mais se tem a certeza de que o relativo é presente em qualquer assunto. O depende, ainda que implícito, acaba se tornando clichê, porque, se é clichê, verdadeiro é.

Um grupo de amigos marcou uma viagem de fim de semana ao Guarujá. 2 casais, unidos pelo riso e quase nada pela dor. Não se conheciam há tanto tempo assim, mas diríamos que o suficiente para se agendar momentos de prazer e de interação.

Assuntos agradáveis pelo caminho até a chegada ao apartamento. Assim que entraram, perceberam dois quartos, um com a cama perto da janela outro com a janela ao lado do armário. Um dos homens pediu pra dormir com o vento embalando o seu sono.

Trocaram-se e foram para a praia. Existem os casais que ama ler na areia e os que amam andar por ela, beirando a água. Acharam melhor a liberdade. Dois abriram suas páginas e dois seguiram para a direita.

Voltaram a se encontrar quase 3h depois. Parece que houve um estresse entre os andarilhos, porque o bico de ambos furava a areia. Quietos chegaram, quietos ficaram. A leitura, que poderia se encerrar assim que se encontraram, foi prolongada por mais uma hora.

Decidiram almoçar no apartamento. Os homens cozinhariam e as mulheres lavariam a louça. Voltaram em silêncio. Na cozinha, o mal-humorado preferiu abrir a boca para desabafar com o atarefado mestre-cuca. Enquanto que, na sacada, a leitora teve de ouvir os lamúrios da amiga.

Entre garfadas, elogios e alfinetadas, o almoço passou. Tentaram os leitores falar, mas os olhares raivosos dos outros dois podaram qualquer chance de um almoço tranquilo.

Cansados, os carrancudos, cada qual, seguiu a um quarto, bateram as portas e a louça sobrou para os falantes, que deram graças, porque ao menos o clima melhoraria e o fim de semana poderia ser salvo.

Durante a tarde, o homem sai do quarto e seguiu para o da mulher, enquanto o outro casal conversava na sacada e eram surpreendidos com o sorriso dos dois. Tudo voltava ao normal.

Um barzinho à noite selaria a boa viagem. Enquanto dois se trocavam, o casal reconciliado revertia a situação. Eles não iriam mais, porque o cara estava assado de tanto caminhar e com as costas ardendo.

Os impropérios da mulher, que cansou de avisá-lo para usar o protetor e não andar só de sunga, eram um tormento. Disse que os 3 iriam e o peru ficaria sozinho, coisa que não aconteceu, porque os outros dois se mostraram solidários a ele.

O que acabou desencadeando uma nova pesada discussão entre os dois, um convite a um telepizza.

Pela manhã, a chuva veio para abençoar a volta. Decidiram pegar estrada logo cedo. O casal no banco detrás quieto e os da frente, em solidariedade preferiram apenas se apoiarem nas coxas dos outros, uma conexão vital.

Já no pedágio, o assado quis pagar, mas a carteira dele estava na mala, mais um motivo para uma nova discussão até deixá-los em casa.

Fim do passeio, fim da amizade. O almoço dos leitores foi regado a gargalhadas e ao alívio. Já o almoço dos outros dois terminou numa ardente tarde de sexo e juras de amor, sem muito esforço, porque o hipoglós não era lá excitante.


 

 

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

O DIA QUE COMI O LANCHE DA PROFESSORA

Toda criança tem um trauma de primeiro dia de aula. Seja com novos amigos, seja na distância da mãe, enfim, de algum lado a quebra da rotina pode causar transtornos irreversíveis.

Posso dizer que, no meu caso, não foi uma coisa nem outra. Muito menos o primeiro dia, o que vivenciei teve uma consequência mais constrangedora e traumática ao término dele.

Fevereiro de 1979. Eu e meu gêmeo estávamos com seus uniformes impecáveis, cabelos penteados e tudo pronto para começar. Lembro que havia um grupo imenso de crianças sentadas no pátio esperando pela chamada.

Assim que nossos nomes eram ditos, tínhamos de levantar e seguir para a fila de determinada professora.

Posso pontuar aqui o porquê de amar meu sobrenome. Apeguei-me tanto a ele talvez pelo descuido imperdoável que o foi destinado. Quando ouvi pela terceira vez “Adriano Paciello”, o nervosismo era tamanho que só levantei porque não haveria um outro Adriano por ali.

“Paciello, Paciello, Paciello”, repeti a mim várias vezes tentando me livrar do constrangimento ao qual me submeti.

Enfim, turmas colocadas, aulas começadas. Olhava com certa desconfiança a todos que lá estavam e temia as meninas, porque elas não faziam parte do meu mundo. Não sabia como me dirigir a elas na mesma intensidade que não desejava isso.

Às14h45, hora do recreio, a tensão daquela meia tarde me abrira o apetite. E nunca fui, digamos, uma criança mirrada. Nem com meus 3 quilos e trezentos em meu nascimento.

Levei de lanche um pão francês com hambúrguer e uma garrafa de groselha Milani, que mal deram para tapar o buraco que havia em meu estômago. E como a sobrevivência fala mais alto, fui firme e forte para a tia Vera, dizendo:

- Tia, eu estou com fome.

- Sua mãe não lhe mandou lanche?

- Mandou, mas ainda estou com fome.

Ela olhou para o próprio sanduíche de salame e me ofereceu. Mesmo não sendo do meu gosto, aprendi que o melhor tempero era a fome e devorei o lanche da professora.

E minha sentença foi decretada. Porém, se tivesse de morrer, que fosse de estômago cheio. Assim que minha mãe chegou, a tia Vera a alertou para a quantidade do lanche, que certas crianças demandavam uma quantia mais vultosa.

O olhar que minha mãe me deu me valeu todas as 4 bolachas de água e sal que levei no resto da semana. E ouso dizer que só duas seriam suficientes para o recreio de meses.

 

domingo, 16 de dezembro de 2012

O DIA QUE MARCELO PACIELLO ENTRARÁ PARA A HISTÓRIA

Em 12 de junho de 2013, uma quarta-feira, meu irmão, Marcelo Paciello, lançará o livro O EXORCISMO DE 1993, O ANO QUE O PALMEIRAS SAIU DA FILA.

De antemão, segue o prefácio do livro, um convite a todos para dividirem as linhas deliciosas dessa história e se contagiarem com a energia empolgante do meu irmão mais velho.

Há momentos em que um livro seria a maneira mais digna de se contar uma história. Mas existem histórias que de tão fantásticas servem de inspiração, de saudade e de orgulho. Eis aqui um desses exemplos em que a realidade - tão dura muitas vezes – serve como uma rendição, se nem sempre justa, ao menos saborosa.

Marcelo Paciello consegue em uma única obra reunir todas as paixões que lhe rodearam a vida, os, até então, 24 anos de sua existência. Se eu pudesse fazer uma descrição, colocaria um centroavante com baquetas na mão... Ou um vocalista de chuteiras. Não importa, reunir emoções tão similares e antagônicas não é fácil, não foi fácil, mas ele conseguiu.

Nas linhas desta história, cabe dor extrema, uma dor que esbarrava num grito, numa explosão contida, tantas vezes interrompida, outras mais, podadas. Nas linhas desta história, há uma determinação invejável e um amor apoteótico pelo clube, quase uma epopeia, quase um final infeliz.

A narração, tensa como uma final de campeonato, é tão real que, ainda hoje, mesmo sabendo de todos os resultados dos jogos, tenho a impressão de que a bola não vai entrar. Mas o gol sai assim como o grito, um presente a todos que amam futebol.

E melhor do que ter lido essa saga é fechar os olhos e saber que tudo isso foi real, porque eu estava ao lado do meu irmão. Como Sancho Pança, segui meu Don Quixote em várias batalhas, eu o vi derrubar moinhos e fui por ele catequizado nas arquibancadas do antigo Parque Antártica.

Agora, é uma recompensa ver o exorcismo de perto e ter a certeza de que, no final das contas, ser palmeirense é muito rock’n’roll.

 

 

 

 

sábado, 15 de dezembro de 2012

AS ESPECIARIAS DE TIO CARMELO

Tio Carmelo tinha um sonho, voltar para Tramútula, na Itália e mandar o coentro de lá, segundo ele, o melhor do mundo.

O tramutulês chegou nos anos 60 por aqui e fez a América com suas especiarias, queijos, frios, azeitonas e pães. Não casou, trouxe as seis irmãs para cá e cuidou delas como filhas.

Tinha 16 sobrinhos e 5 sobrinhos netos. Palestrino, dedicou-se aos clientes e às arquibancadas do Parque Antártica. Teve uma vida honesta e sem muitos sobressaltos.

Gabava-se de ser o primeiro a querer ser cremado na família e a não temer a morte. E digamos que foi um breve resumo da vida desse homem, que passou os dias juntando dinheiro para voltar ao país, que tanto ama.

E depois de quase 50 anos, ele conseguia. Aos 79 anos, Carmelo conseguia dinheiro suficiente para ir para Tramútula e por lá ficar e finalmente todos conheceriam o coentro italiano.

Dizia o tio que até a cor era diferente, porque quando se prefere algo, quando se ama algo, tudo é diferente, mesmo sendo igual.

E a italianada se reuniu em Cumbica e fez a zarzuela chorosa, exagerada. Digna de recepção de banda de rock. E o aceno alegre de Carmelo selou sua missão no Brasil e o colocou de volta aos temperos da velha bota.

Semanas se passaram, e uma caixa com seis frascos chegavam da Europa. Quem os recebeu foi a caçula, de 12 anos, que urrou dizendo que os “coentro italiano” tinham chegado. E que o pirão daquele domingo seria à base de Tramútula.

A parentada se reuniu para comer um prato típico brasileiro com o toque mágico de Carmelo e suas especiarias exóticas.

Muita música, muita festa. E aquela anchova com o pirão ficou única, realmente o tio fora certeiro, aquele sabor era eterno.

Havia apenas um detalhe naquele evento: crer que a carta que chegara junto aos frascos com a palavra-chave “cremazione” poderia estragar o almoço era fato.

Então que a notícia chegue depois da digestão.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

O SABOR DA VITÓRIA

A primeira vez que passou em frente a uma faculdade foi com a mãe, que vendia empadas na rua e disse à filha que seriam elas que a levariam para um prédio daqueles. Era essa a única referência sobre diploma.

E foi isso que ficou martelando em sua cabeça enquanto seguia com o canudo para o seu assento. A mãe não sobrevivera para ver aquilo, porém sorria e chorava quando a menina entrou dizendo que havia passado.

No segundo ano, assumiu as mensalidades e deixou a poupança se esvair em médicos e tratamentos. De certa forma, todo o esforça em manter a qualidade boa do produto se reverteu em algo bom à sua vida, ao menos prolongando para ver a menina conseguir um estágio e financiar um automóvel.

Agradeceu aos céus de nunca mais ter de andar de ônibus. E amava os presentes e mimos. Mas não conseguiu aplaudir de perto a filha, que em mais dois anos fazia um MBA e era promovida a gerente em outra cidade.

Não casou. Não quis filhos nem cachorros ou gatos. Talvez aprendera a viver por uma pessoa e agora aprendia a viver por si e para si.

Conheceu todos os continentes, falava três idiomas, demorou dois dias inteiros para ver todas as obras do Louvre e colocou na cabeça que moraria em Viena.

Quando pulou de paraquedas, sentiu que era livre, bem como em todos os brinquedos da Disney, riu como criança abraçada ao Mickey e chorou vendo o castelo da Cinderela.

E na volta de Toronto, relembrando tudo o que viveu e fez, ainda sentia que lhe faltava algo, uma tarefa, um desafio ainda maior para se sentir completa.

Ao chegar em casa, desfez a mala e não descansou.

Fez uma bagunça, uma sujeira. Toda a organização de sua vida, arquivos, investimentos e o legado profissional que servia de exemplo não estavam por lá.

Quase três horas depois, exausta, sentou-se. Olhou bem para ela. Sorriu satisfeita e curtiu sozinha aquela sensação de sucesso, porque teve certeza de que – enquanto mastigava e saboreava - aprendera a fazer a melhor empada que comera na sua vida.