quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

QUEM MUDA O SEU DIA?

A reunião demorou o tempo suficiente para esgotar. Números, projeções e estatísticas muitas vezes faziam-no lembrar por que seu salário era tão alto.

Clientes, a maioria insatisfeitos, seriam sua prioridade, porque bajulações estavam fora de cogitação e reverter o jogo a favor da empresa fazia-o lembrar por que era considerado um diplomata.

Os problemas com os pais, separados há anos, principalmente em datas como as de dezembro, faziam-no lembrar que, assim como os filhos, pais também são eternos.

A reunião de dez anos de formatura da faculdade, tirando alguns professores, fazia-o lembrar que muitas pessoas entram na sua vida por acidente de percurso.

O reencontro com alguns amigos de infância, naquele dezembro, visitando a mãe, fazia-o lembrar que a saudade realmente ficava muito distante da realidade e que os bons momentos eram mais presentes.

No almoço, enquanto esperava pelo chefe, mexia no célular e via a foto do seu cachorro, e isso fazia-o lembrar que entre as melhores coisas da vida, está uma lambida do seu cão quando você volta pra casa.

O macarrão daquela famosa cantina, delicioso por sinal, trazia um pouco menos de queijo que o seu gosto pedia e fazia-o lembrar que - por mais requintada que fosse a gastronomia do local - sua mãe era imbatível.

O trânsito caótico daquele dia e de todos os demais fazia-o lembrar que precisava andar mais, porque seu colesterol estava alto.

E aquele “alô” - no meio do congestionamento, entre o rádio e o calor - de surpresa e renovador, fazia-o lembra que viver vale a pena, que tinha alguém que mudava o seu dia.

 

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

SANTOS NUNCA SE APOSENTAM

Mais uma lenda dos campos se aposenta hoje à noite, às 22h no estádio do Pacaembu. Para todos que pensavam que Marcos Roberto Silveira Reis, o São Marcos, fosse interminável, parece que ele está disposto a provar o contrário.

Não quero trazer números, estatísticas ou ratificar todos os clichês que foram vistos e ditos por esse goleiro colossal.

Tudo isso é desnecessário agora.

Como palmeirense, quero agradecer por tudo o que ele representa. Todas as alegrias que ele me deu e todos os sonhos que partilhou com palmeirenses e brasileiros.

Há três meses, pude ver a bizarrice num shopping em São Paulo com o lançamento do livro dele. Eu e meu irmão Luciano tentamos ficar, mas houve quem passou a noite para pegar uma assinatura do ídolo e um sorriso dele.

Marcos ficou até o último fã e ficaria tanto quanto fosse possível, porque em tempos de mediocridade e de decepção, o camisa 12, mais um palmeirense a vibrar com a torcida e comprovar que pela defesa ninguém passa – se torna mais do que imortal no futebol, torna-se referência.

Não consigo ver uma unanimidade no futebol como o filho de Oriente. Quem ama futebol, ama o cara.

Até o Marcelinho Carioca está triste com seu adeus.

A você, santo por dom e ídolo por causas naturais, obrigado por tudo. Não é sempre que se consegue um título como você conseguiu.

Se futebol é bola na rede, ninguém – evitando isso – se torna um artilheiro ao avesso, só você!

Eu odeio clichês, mas, se são clichês, é porque são verdadeiros, portanto encerro aqui prometendo duas coisas; a primeira, estar no Pacaembu hoje com meus irmãos; e a segunda, dizer em alto e bom som: “Puta que pariu, é o melhor goleiro do Brasil, MARCOS!”

 

 

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

O TEXTO QUE MINHA MÃE ACHOU QUE NÃO ERA MEU

      Falar sobre leitura é quase que ar para mim. Respirar letras e aspirar orações são atividades mais do que habituais, são a minha vida. Porém até chegar a isso e ter essa consciência houve um longo caminho. Caminho esse que pode ser percorrido por qualquer pessoa desse Brasil. Sempre que inicio uma aula sobre esse tema, costumo perguntar aos alunos qual é a importância dele. E há muito tempo deixou de ser surpresa o “não sei” que escuto de modo rotineiro. É comum ouvir pessoas falando que ler é importante, e quase nunca  a derradeira pergunta é feita: “Importante pra quê?”.

            Imagine o cérebro sendo um músculo, se não exercitamos esse músculo, ele acaba atrofiando. Ler é estimular o raciocínio, é engolir conceitos, devorar palavras, vivenciar histórias. Só se torna leitor lendo, lendo tudo que lhe possa passar pelos olhos. Deve ser um hábito, quase como um ritual natural. Muitos falam que não gostam de ler, entretanto não se atentam que sempre o fazem. Acabam associando leitura a livros somente. Mas e as revistas, as legendas, mesmos os recados em redes sociais, email’s, torpedos? Todos leem todos os dias e não sabem disso.

            Então, se formos associar essa deliciosa mania a livros, recomendo que comecem pelos infantis. E isso é válido? Sim. Sempre. Pode-se aprender com todos os níveis de leitura. Um ótimo leitor antes de tudo é um excelente observador. Num livro infantil há desenhos e por quê? Porque a criança, que ainda não tem esse domínio, pode associar a história aos traços coloridos. Mesmo que seja uma forma de podar a imaginação do leitor, ainda assim é uma forma de incentivar que as ilustrações, aos poucos, passam do papel e ficam apenas na criatividade de quem corre os olhos pelas páginas. Sempre existe uma outra história sendo contada dentro dos desenhos.

            Passemos então a outros níveis de linhas. Comecem a ler assuntos que dão prazer a você. Todos temos nossas predileções, e passar a colocá-las em palavras é quase um curso contínuo e irreversível. Uma história que lhe seja agradável, semelhante à outra. Ou um outro trabalho de um autor que acabou de lhe despertar emoções e satisfazer seu intelecto. E de repente, você é leitor. E uma vez formado jamais deixa de ser. Sem querer, não se acaba percebendo quantas páginas que o guiaram até isso.

            Existe leitura a tudo, desde gibis a filmes, desde músicas à vida e que resulta em uma fonte inesgotável e insaciável. Quanto mais se pratica, mais se quer praticar. Quem me desmentiria se eu dissesse que matei moinhos com Dom Quixote, que caminhei de mãos dadas com Vergílio, que enjoei no mar com Hemingway, que estava na batalha em que Camões perdeu um dos olhos, que tentei encontrar com Alice o caminho de volta e que caí da vassoura voadora de Harry Potter.

Falar que fiz essas viagens pode ser nada original, e que o passaporte foram os livros, então, menos ainda. Porém quem já cansou de ouvir isso é leitor. Desejo que cansem mais pessoas e que um bom livro seja a cama de todos nós.  

sábado, 8 de dezembro de 2012

O DIA QUE OS PACIELLOS PEGARAM A ESTRADA PARA O INFERNO

Todas as bandas têm a sua história, o seu primeiro dia de sucesso, o exato momento em que a lua, o sol e as estrelas se alinharam e focaram as luzes em algo mais reluzente ainda.

Seria fantástico ver de perto tudo isso.

Longe, bem longe disso tudo, joguemos nossas atenções em São Paulo, mais precisamente no bairro do Tatuapé. 1992. O pessoal da rua Lopes Moreira costumava frequentar um bar cujo nome serviria de catapulta a qualquer estrela do rock’n’roll, Costelinha!

E foi lá que meu irmão e eu começamos nossa longeva carreira na música. Experientes em churrascos, festas e o que viesse, éramos atração das rodinhas de violão, com as famosas revistinhas de cifras há tempos.

Fosse em São Paulo, em Rio Claro, no Rio de Janeiro, nossa fama corria os quatro cantos entre os familiares e amigos. Era comum em cantinas, daquelas que havia um trio de músicos que iam de mesa em mesa, pedirmos uma só pra sacaneá-los. Meu irmão sempre dizia: “Posso tocar então?” E a festa acontecia.

Parênteses aqui, Marcelo sempre foi o animador. Confesso que deixava o cara empolgar todos pra depois entrar. Oportunista? Nada, sábio, ele sabia fazer isso como ninguém.

Crescemos num ambiente musical. Lembro-me de um dia, numa das várias sessões de rock, o violão rodar entre 5 ou 6 dos 15 que lá se encontravam.

E em 1992, descobríamos o Costelinha , como ponto de encontro. Até que numa sexta, apareceu um rapaz, com violão e um teclado. Aquele som ambiente, nada empolgante.

Em determinado momento, ele começa uma melodia semelhante à outra música. O cara de pau do meu irmão se levanta – acompanhando o ritmo -  e começa: “Alô, alô, W Brasil! Alô, alô, W Brasil! Jacarezinho! Avião!” O bar veio abaixo cantando a moda de Jorge Benjor. O músico sorriu e se empolgou e mais uma vez, o Marcelo conseguiu.

Não satisfeito, depois dos aplausos entusiasmados de todos, porque o bar estava aceso – o Paciello mais velho falou ao músico: “posso tocar?”. Pegou o violão e me chamou. Tínhamos um repertório pronto. Daí, os deuses do rock nos iluminaram. A casa veio abaixo.

Um de nossos amigos desceu voando para casa, pegar a câmera de vídeo. Quando vi, ele apareceu no meio do bar filmando tudo. Acabou registrando a nossa entrada triunfal e a parceria que segue unida até hoje, mais de vinte anos juntos. Uma noite gloriosa, que antevia todos os incontáveis shows que protagonizamos.

Naquela noite, bar lotado, público ao delírio. Um violão e um microfone fizeram a diferença. Naquela noite, Marcelo Paciello e Adriano Paciello pegavam a estrada para o inferno, para nunca mais voltar!

 

  

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

OS NÚMEROS DA SORTE

Nunca deu ouvidos a crendices. Era cético. Tarô, quiromancia, mapa astral, religiões, vidência lhe soavam como um estelionato espiritual. Talvez porque tivesse medo, talvez porque desconhecesse ou talvez porque era preconceituoso mesmo.

As verdadeiras razões nunca saberemos, o que se sabe mesmo era que estava endividado ao extremo. Não pagava a prestação do carro há dois meses, bem como o seguro. O mínimo do cartão beirava os 3.500 reais, e o saldo devedor dos dois bancos já passava de 15 mil reais cada.

Naquela sexta, o desânimo cobria qualquer promessa de fim de semana, não havia dinheiro no banco, na carteira. O que lhe restava era o crédito do vale alimentação e os 300 reais que a mãe lhe dera para pagar à mulher do Avon, que ficaria sem eles ao menos até o fim do mês.

Não cria num milagre, porque milagres inexistem. Mal se concentrou no trabalho, mal conversou no almoço e recusou o happy hour. Saiu do escritório a pé, decidiu caminhar, diziam que andar ajuda a pensar, quem sabe se o fizesse por 15 km, até em casa, algo brilhante lhe ocorresse.  

Pelo caminho, passou por uma igreja. Por segundos pensou que tivesse pensando que entraria pra rezar. Mas o que um ateu faria pedindo a Deus. Como pedir algo, confiar a alguém em quem não se crê?

Seguiu adiante. Parou num bar. Pediu uma cerveja e uma porção de amendoim, porque seria menos de 10 reais. E uma mulher de meia idade sentou em sua mesa. Uma cigana, pedindo para ler a mão. Ele sorriu e disse que se ela soubesse a realidade, ele deveria pedir ajuda.

- Mas sou eu que vou te ajudar, anote 98-02-10-12-1

- Anote – ele puxou do celular - 98-02-10-12-1, o restante é com você... – e sumiu.

Não podia ser. Por mais cético que fosse. Como podia ser??? Não tinha como ela saber dos problemas financeiros do rapaz. Mas ela deu cinco números. Mesmo que a Mega-Sena trouxesse seis. Mas, se o restante era com ele, ao menos, a quina estaria garantida.

O sorteio correria no dia seguinte. 80 milhões de reais. Mesmo que não acertasse os seis, que viessem uns 100 mil, sua vida estaria refeita. E só precisaria de um jogo. Sorriu e não creu que creu nela.

Saiu de lá e conseguiu, por causa da procura, uma casa lotérica aberta. Encarou uma hora de fila por um único jogo. Não podia ser. Contas pagas, tranquilidade de volta.

Sorteio. Primeira bola: 98. Não podia ser! Segunda bola: 02. Sentou, porque em pé cairia e bateria com a cabeça. Terceira bola: 54. Mais duas, e a quina seria dele. Quarta bola: 22. Quinta bola: 34. Sexta bola: 04.

Queria se matar. Não por não ter acertado, por ter acreditado naquela mulher. Por ser o cético mais imbecil do mundo. Fez questão de olhar de novo os números do celular e os que anotou. Batiam. Apertou sem querer o ligar e desligou imediatamente.

Segundos depois, o celular tocou. Ele olhou e eram os mesmo números, sentou incrédulo enquanto dizia alô:

- Alô? Você ligou para mim. É consulta? Quer que eu leia a sua mão?

 

 

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

DEIXE-ME VIVER!

Poderia ter escrito muitas coisas aqui, poderia ter aberto meu coração como um hidrante no verão... Seria esse pedido abaixo que eu faria à vida, pelo menos hoje, pelo menos nos últimos dias... 






 

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

A ROSA, A LOUSA E UM LATIDO!

Faria apenas 4 anos, mas sabia que podia cuidar de um cãozinho. E como não é sempre que se faz 4 anos nessa vida, pediu para que a professora lhe ensinasse a escrever: “Eu quero um cachorro de aniversário”.

Treinou por quase três semanas ininterruptas e pediu que o segredo ficasse entre elas. Sempre gostava de merecer o presente, e teve a certeza de que se colocasse os pais a ver as letras saindo-lhe das mãos, seria atendida.

Levou a sério quando, sentada com o pai, vendo um medalhista no pódio, perguntou por que ele estava lá, “porque ele fez por merecer”. E se correr como um louco, coisa que ela fazia sempre, ele ganharia aquela medalha, uma frase, um pedido, se caprichasse nas borboletas, seria o suficiente para ganhar seu cachorro.

Tentou à exaustão escrever tal qual à letra firme da professora, mas a danada deveria merecer um zoológico inteiro. Comparou as frases e sempre se esquecia do traço em cima daquela letra barrigudinha.

Pediu à mãe que, quando faltassem 4 dias para o aniversário dela,  a lembrasse, pois havia um pedido a ser feito. E tudo foi realizado. Depois do jantar. Ela pegou a pequena lousa, firmou bem a mãozinha e escreveu na pior das caligrafias, porém na melhor das intenções.

A mãe teve de sair, porque não saberia explicar as lágrimas. O pai a abraçou fortemente e também teve de se conter, quando ouviu se a medalha dela seria um cachorro.

E então, o pai a sentou no chão e disse que daria primeiro a ela uma rosa. E ela tinha de plantar essa flor no jardim. E que, se em 4 dias a rosa continuasse viva, ela ganharia o cachorro. Disse que teria de dar água à flor, atenção, cuidados necessários para que não morresse. E só assim ela estaria pronta para cuidar de um amigo mais intenso.

E os três foram até o jardim. E a menina plantou a rosa e jogou as primeiras gotas de água. E nos próximos dias, ao menos por um período, ela fez o que o pai pediu. Saía para a escola e beijava a flor e pedia em silêncio para que ela não morresse. E quando voltava da escola, sorria ao vê-la firme e linda.

E dava outro beijo nela. E o ritual se repetiu por 4 dias. Na manhã do seu aniversário, ela correu para a janela e sorriu feliz ao saber que estava pronta.

Desceu na ponta dos pés e notou o movimento fora da casa. Ouviu as vozes dos pais e dos avós. Ouviu um latido e sorriu o sorriso mais luminoso desse mundo. Abriu a porta e o filhote veio voando em sua direção. E ela rolou com ele pelo chão e soube que aquele seria o melhor presente que teria na vida.

Um dia talvez entenda a lição daquilo tudo. Não foi a flor, não foi a frase ou até o seu amigo, foi ter a certeza de que sonhos se realizam porque realmente eles existem.