Jerusalém, ano 30. Estava Jesus se preparando para o Sermão da Montanha. O fim da tarde era iminente e a introdução de suas palavras deveria ser breve.
segunda-feira, 31 de janeiro de 2022
A MESÓCLISE DE CRISTO
segunda-feira, 17 de janeiro de 2022
O PACIFICADOR MÍOPE
Histórias sobre óculos sempre são inusitadas, mas a que veremos é mais do que isso, é um brinde à paz.
Pela insensibilidade da Federação Paulista, Palmeiras e São Paulo jogariam no mesmo dia, no mesmo horário. E fomos os 4 ao jogo já nos moldes costumeiros, anônimos.
quarta-feira, 12 de janeiro de 2022
O DESCUMPRIDOR DE PROMESSAS
As preferidas eram por curas e por empregos. Tinha promessa pra engravidar, pra campeonato, pra venda de terreno, até pra sobriedade. Batata! A família tinha assumido um carnê com os santos, pagos mensal e religiosamente. Tinham acordado entre si que os elos da corrente jamais se quebrariam. O menino se acostumou aos milagres. Até mesmo São Longuinho, o estagiário dos santos, dava as caras por lá, sempre eficiente, mas sem efetivação aparente.
Antenor não tinha tanta pretensão assim, mas foi na 7ª série, quando uma nota vermelha em matemática apareceu, que a mãe sugeriu que ele enfiasse a cara nos livros e uma promessa a São Judas Tadeu. Foi o que ele fez. Em troca de uma boa nota, um ano sem comer chocolate. Qual não foi a alegria de uma nota 8 e qual não foi o desespero da mãe: "Não existe São Judas Iscariotes!!!".
E o garoto plantou uma crise entre todos. Seria o tesoureiro um santo? Teria o traidor agido de modo escuso? Fato é que o acordo se cumpriu, mas - pelo bem comum e pela sábia avó maternas, com seus 88 anos - julgaram melhor que a promessa não fosse cumprida, e Antenor ficou entre a tensão de sua indigna palavra e a tentação dos bombons. Preferiu a conveniência e se entupiu deles sem remorso.
O acordo não foi cumprido e a vida seguiu. Todos esqueceram a heresia e ninguém morreu. Quando completou 18 anos e o vestibular se sentou ao seu lado, a mãe não teve dúvidas, incutiu São Judas Tadeu - 'TADEU!!!"- repetiu em letras garrafais para que o despacho católico não ganhasse mais uma vez uma via errada.
Um rosário foi formado na família. Vieram as tias e quem mais estivesse disponível, e o menino saiu pro exame com duas certezas: o chocolate e Iscariotes, era supersticioso demais - graças à devoção dos seus - para quebrar suas promessas. Fez suas orações, seus acordos e bingo: na primeira lista! Festa e chocolates escondidos com louvor.
Agora era a vez do emprego. A multinacional requeria algo bem mais ousado, e Santa Rita de Cássia era apresentada ao rapaz, que a olhou de cima a baixo e não teve uma empatia intensa, principalmente pela promessa sugerida: sua castidade. Ora, diria o pai, um adolescente se vira muito bem em um ano. E mais vale um bom salário do que um belo par de coxas.
Não, decididamente não. Ficou Antenor com suas crenças e Iscariotes não o trairia, diferentemente do requerente. O RH apareceu junto a uma caixa de chocolates importados. E a doçura se fez presente, fosse com cacau, fosse sem lingeries. O cargo o fez livre. Aos 24 anos, tinha mais do que imaginou.
E foi nessa soberba que se perdeu e, numa manhã de sábado, a campainha tocou e Maria, uma moça de cabelos curtos e olhos profundos, sorria à porta, perguntando sobre Antenor, que não lhe atendia as ligações e que seria pai em 8 meses, caindo na desgraça familiar.
Julgou que Iscariotes tinha escolhido o melhor momento para cobrar o que lhe era devido e lhe desmascarar a canalhice e a falta de dignidade usando uma genialidade inoportuna: sua excomungação e sua queda.
Antenor, então, se lembrou de Santa Rita e, dessa vez, afogou seu parceiro no inferno e, com todas as suas forças, pediu que um milagre acontecesse, em troca, esqueceria - e por 2 anos - dos chocolates, das coxas e de qualquer momento de prazer. Seria um celibatário por natureza, um ermitão.
E pôde se redimir com honestidade, humilhando-se em sua soberba e principalmente em sua desobediência. A gravidez não seguiu adiante e o rapaz tinha seus quase 800 dias de uma nova vida, sem graça, sem emoção e com testes diários à sua dignidade.
6 meses depois, percebeu que fora a melhor promessa de sua vida. Encontrou-se. Sua serenidade o pôs feliz, porque percebeu que muitas futilidades mundanas eram efêmeras. Nunca dormiu tão bem. Nunca teve tanta paz e apaixonou-se pelo isolamento. Realmente era o momento mais feliz de sua vida e encontrou prazer em tudo que rechaçou por anos.
Foi então que percebeu que sua promessa estava, mais uma vez sendo quebrada, porque havia decidido se afastar de tudo que lhe desse prazer. De certa forma, fez jus a um legado que jurou defender até o fim de seus dias. Travou numa manhã a caminho do trabalho. De repente, ele parou no meio da calçada, entre o vaivém frenético das pessoas que não tinham tempo nem o privilégio de travar.
Estava ainda parado, sendo desviado, sendo xingado. Quando se deu conta, percebeu que, do outro lado da rua, havia uma brigadeiria insinuante e lasciva. Era a resposta que precisava, porque precisava de um enorme e suculento brigadeiro. Sorriu e atravessou a rua confiante. Seria seu melhor deleite em meses, não fosse uma kombi desavisada colocá-lo violentamente no chão.
A manhã estava interrompida, não apenas por uma freira estar no volante, mas principalmente pela consequência do atropelamento. Qualquer um teria morrido, no entanto quem presenciou o evento diria ser impossível alguém se levantar depois daquele acidente.
Disseram também que certamente foi um milagre justificável, por a motorista ser uma carmelita. O rapaz se levantou com a ajuda de sua algoz e seguiu sua vida sem traumas nem cortes, porém com uma certeza que guardaria no fundo de sua alma: Santa Rita de Cássia era sim tão rancorosa quanto Judas Iscariotes.
segunda-feira, 10 de janeiro de 2022
O FESTIVAL DA DESILUSÃO
O olhar melancólico sobre o mundo, as piadas ressabiadas, com o humor desconfiado e tudo mais tinham de soar coerentes à visão que o americano sempre deu às situações diversas da vida.
Allen falou das saudades que sentia em ver a Nova Iorque que tão maravilhosamente sabe explorar em seus longas e isso foi, talvez, uma das distâncias que o forçaram a filmar na Espanha o seu último trabalho, além, claro, da beleza de San Sebastián, aliás uma ratificação do bom gosto de Woody para cidades.
Reitero agora que toda a coerência monstruosa e sem metáforas descritas no parágrafo acima se repetiram com força em Mort, protagonista de "Rifikin"s Festival", o 50ª obra do diretor.
Woody Allen é como McDonald's, você sabe o que vai encontrar e é exatamente isso que você quer ver. A diferença é que nesse longa muitos outros filmes podem ser revistos aqui. Um professor de cinema insatisfeito com a sua carreira e com as novidades cinematográficas acompanha a esposa ao festival de cinema em San Sebastián.
Com o casamento por um fio e desconfiado que ela o trai com um diretor francês, ele se deixa levar pelos atrativos da cidade e se apaixona, claro, por uma mulher mais nova.
Se você conhece bem o trabalho do diretor americano, certamente vai dizer: "Epa, mas eu já vi algo parecido em algum outro filme dele!". Sim, viu em MEIA-NOITE EM PARIS, em UM DIA DE CHUVA EM NOVA IORQUE, em TODOS DIZEM EU TE AMO, em TUDO PODE DAR CERTO e por aí vai - e tudo bem.
Marcas registradas de roteiristas e/ou diretores são comuns. No entanto as semelhanças aqui ficam muito mais que evidentes, aparecem já sem força e provavelmente sem nenhum ardil em esconder as próprias fontes de criação.
Mas existe aqui uma confissão do diretor, o seu desânimo descarado com tudo. Os recentes cancelamentos que sofreu pelas especulações (ou não) de assédio e a batida história de seu casamento com a filha adotiva mais do que suscitam controvérsias e divergem opiniões. Ele passou a ser seu próprio holofote. E, quando se vê um protagonista desiludido com o cinema, não se pode negar que seu cansaço também está ali.
De todos os personagens principais de seus filmes, nunca um foi tão longe de si mesmo. Seus alteregos apareciam sem nenhum esforço de esconder o diretor. Você não via os autores, você vi Woody ali, reclamando, ironizando e se lamentando.
Neste último trabalho não. Talvez tenha chegado a hora de se desvencilhar de mas linhas, de suas palavras para tentar entender ou aceitar a sua dor ou se despedir da ficção com esse peso, com esse pesar. Me convém pensar que a escolha de Wallace Shawn reforça esse tom morno e pouco carismático que o diretor tem na vida real: uma confissão e tanto.
Então, leitor, você pode concluir que eu não indicaria o filme! Não, muito pelo contrário, indicadíssimo. Não quis falar mais sobre porque ele merece ser visto, porque tudo o que Woody Allen faz tem seu valor grandioso, para o bem do cinema, para o bem da arte e contra toda a mesmice que desfila por aí, porque existem desânimos bem talentosos neste mundo.
quinta-feira, 6 de janeiro de 2022
UMA VIDA BOA
Dizem que existe um determinado momento da vida que nada mais pode acontecer, mas nunca legitimam o momento exato para que o fim seja decretado. Como se existisse um dono de tempo, com seu relógio a marcar os derradeiros segundos e decretar o inevitável fim de tudo ainda em vida. E o velho creu nisso. Seus 82 anos realmente não poderiam inspirar longevos projetos, no entanto limitar seus passos e sonhos a idas ao mercado ou à farmácia e vibrar com cada noite bem dormida era sim um espólio do nada.
auge.
segunda-feira, 26 de outubro de 2020
O DIA QUE PASSEI DE LADRÃO A ANJO
Na minha terceira e última separação, por motivos que agora não vêm ao caso, não deixei apenas minhas responsabilidades e um passado frustrado, deixei minha cachorra. Mafalda era tão minha que tinha Paciello em seu pedigree. Enfim, depois da morte do meu pai, foi a minha maior e mais duradoura perda que tive em meus dias.
Passei meses numa tristeza amarga e em lembranças duras. Era comum abrir meu notebook e rolar as fotos dela tela abaixo junto com minhas lágrimas. e meu amor pelo cães virou uma obsessão escancarada.
Parava donos e seus cães na rua para mexer com eles, tentava me aproximar dos cães de rua para amenizar minha saudade. Muitos até se deixavam acariciar. Um raciocínio mais lógico pedia pra pegar outro cão, no entanto eu precisava resolver a Mafalda em minha vida, viver aquele luto com dignidade e estar preparado pra me dar outro pet.
Evitava passar por feiras de adoção, não suportava olhar aqueles cães sem uma forte pontada em minha alma. Tinha de resolver aquele luto. E resolveria no tempo certo.
Sempre tive o hábito de caminhar. Punha uns bons quilômetros para pensar na vida e em outras coisas. E foi em uma delas que me deparei com uma cena inusitada. Na mesma calçada, na próxima esquina, eu vi um peludo sozinho e perfumado.
Era fato que ele havia acabado de sair de um banho, a gravatinha vermelha o denunciava sem mistérios. Olhei-o sem grandes ambições e esperei que alguém se aproximasse. Ninguém se aproximou. O bicho estava sentado, com a língua de fora, olhando a vida. Parecia assustado.
Parei minha caminhada e olhei ao redor. Nada. Tive medo de me aproximar de modo mais brusco e assustá-lo e o danado correr ao encontro dos carros. Tentei mostrar naturalidade, mudei minha rota e comecei lentamente a me aproximar. Na metade do caminho, ele se virou para mim. Eu mantive os passos moderados e parei. Se alguém estivesse atrás dele, logo o chamaria, então não fiz qualquer movimento.
Esperei alguns segundos e nada. Agachei-me, assobiei a ele, que logo devolveu um abanar de rabo promissor. Aquilo me encorajou e fui ousado, dizendo um sincero "Vem cá, danado, vem". Pois não é que funcionou, o cãozinho correu em minha direção, feliz e me deixando numa alegria nada contida.
Ele pulou nos meus braços, eu o agarrei e não tentei me safar das lambidas que ele me dava. Levantei-me e olhei aos lados. Nada. Alguém aparecia em breve. Nada. entre outras tantas lambidas, convenientemente juguei que minha cura havia acabado acontecer. Deus o havia colocado na minha vida, assim, de presente e de gravata vermelha.
Meu luto havia sumido, naquele momento, Mafaldinha deixaria de ser uma tristeza amarga e passaria a ser uma saudade doce. Respirei fundo e o levaria para casa. Era uma sábado quente e o meu trajeto pedia sombras e o do pequeno também.
Então decidi voltar pela rua onde o encontrei. Desci com ele no colo e, ao virar, duas crianças berraram felizes e correram ao meu encontro, chamando-o pelo nome. O pequeno ficou arisco e logo quis descer. Os pais vinham atrás e o pet correu ao encontro dos quatro, que me agradeceram emocionados.
Eu deveria ter ficado egoisticamente decepcionado, mas ver o alívio das crianças ratificou o que meu coração sentiu naqueles poucos minutos. Passei de ladrão a anjo e meu luto havia sumido, o pequeno havia me curado e, dias depois, Brigitte, minha pug, de 7 anos hoje, entrava para a minha vida.
quinta-feira, 22 de outubro de 2020
A MOÇA DE CABELO AZUL
Com o dólar em alta, ele suou horrores, mas conseguiu a grana que viabilizaria o sonho da avó. Roteiro preparado, valores em dia, sobrariam até uns mil reais para alguma coisa no Duty Free. fez questão de um hotel bom. Seriam 5 dias por lá e suficientes para que enfim ele pudesse viver a sua vida e realizar os seus sonhos. Naquela manhã de sábado, ele foi à agência de viagens que se tornara da família, desde quando as cotações começaram.
Entrou confiante e aliviado e sentou na recepção, revirando as revistas e esperando sair de lá com passagens e estadas fechadas. Fernando se deu conta daquele perfume cítrico que o arrebatou por inteiro. Não sabia de onde vinha, mas tinha certeza para onde o levaria. E ele a viu ali, serena, com uma paz inebriante: um convite a estragos previsíveis. O cabelo azul não lhe incomodou, pelo contrário, era do tom da poesia e da cor da harmonia.
Foi então que ela sorriu, mas ele não notou se sorriu de volta. "Sabrina". "Pra Jerusalém, e você?". Percebe-se pelo começo como tudo pode terminar. Ambos sorriram. "Pra Toscana". "Fernando. Se incomoda?". "Não, faço questão". E ela abriu espaço ao seu lado e a sua vida. Quando se deram conta, estavam num café, conversando como nunca o fizeram antes. Era aquela confiança cega que só acontece uma vez na vida, e o destino escolheu que fosse naquela manhã.
Descobriram muito um do outro. Ela amava Beatles, ele também. Ele preferia os filmes melancólicos, ela também. Viam-se um ao outro em outro corpo, em outra vida e tudo numa química só. "Vem comigo pra Roma, de lá você segue pra Jerusalém e me encontra na Toscana".
Era uma proposta tentadora e irrecusável. Uma paixão clichê das boas no melhor roteiro clichê aos apaixonados. Ele sorriu, mas nem os mil reais restantes o ajudariam. "Então eu vou com você pra Jerusalém, e você volta comigo pra Roma. Lá, a gente se vira pra chegar à Toscana". Fernando fraquejou e tentava calcular uma possibilidade, no entanto tomou um beijo inesperadamente esperado e aquilo revirou seu olhar.
Uma viagem dos sonhos, com a garota dos sonhos e uma loucura daquelas era para fazer valer os 5 anos de nada. Voltaram à agência, fecharam juntos dia e horário. Viajariam dali uma semana e Sabrina teve de voltar para o interior naquele mesmo dia. Fernando a levou à rodoviária e se beijaram sem modos até o último instante.
O ônibus saiu, ela espalmou a mão no vidro e disse que o encontraria em 7 dias. Ele não sabia como, mas tinha certeza que a loucura compensaria. Jerusalém, Roma, Toscana... E seu trabalho? Seus compromissos? "Pros diabos", foi a sua maior rebeldia, em 26 anos de vida. E ele tinha Sabrina e ela tinha cabelos azuis, um sorriso lindo e uma inteligência contagiante. Fernando tinha tudo.
Não soube como conseguiu encurtar a semana arrastada, nem se perdoava por ter trocado tudo, ideias, sonhos e até seu itinerário e não ter trocado os contatos. Sabrina, de Ribeirão Preto, cabelos azuis. Era somente nisso que ele pensava, era somente isso o que ele queria ver naquele saguão.
Ele chegou cedo, antes do esperado, antes do combinado. E não demorou para ver a garota vindo com sua mochila imensa e seu azul na franja. Ela sorriu o mesmo sorriso de uma semana atrás e o mesmo sorriso que Fernando sorria. Beijaram-se longamente e logo estava lado a lado na fileira C. Fernando foi na janela, porque era seu batismo. Não dormiram as 12h de voo até Istambul nem dormiriam até Jerusalém.
Passaram o tempo falando de si e ouvindo-se, soltaram-se as mãos apenas para comer. Estavam felizes e inconformados de como chegaram até aquele dia sem um ao outro. Pisaram em Jerusalém numa tarde quente. Foram para o hotel e dormiram agarrados. Na manhã seguinte, ele acordou e não encontrou no quarto. Foi ao banheiro, nada. Abriu a porta, espiou pelo corredor. Nada.
Pensou que seria fácil encontrar alguém de cabelo azul em Jerusalém. Ao menos bastaria afiar o olhar. E ela tinha um sorriso lindo, olhos vivos e uma inteligência doce, pelo menos parecia, mesmo que moça não tenha demonstrado nenhum interesse nele na recepção da agência. A Fernando coube jogar as cinzas da avó numa esquina da via dolorosa, sem que nenhum segurança percebesse.

