domingo, 30 de setembro de 2012

O DISCO QUE NÃO GRAVEI

O menino tinha 12 anos, quando entrou para o coral da escola. Não se lembra de como foi parar lá, mas quando se viu como contralto e conseguindo ver vozes em tons diferentes dando certo, teve a certeza de que queria aquilo para o resto da vida.

Tudo bem que as músicas não eram as preferidas, mas saber que era parte da música já o deixava empolgado. E mais ainda ficou quando, durante o ensaio, fora chamado como exemplo de afinação. Fez um solo, somente com o piano ao fundo, e aproveitou que a voz ainda não mudara, e entoou uma melodia redonda, sob ovações dos colegas.

Difícil dormir aquela noite, deve ter sorrido por semanas.

E a carreira na música prosperava, ficaram em segundo lugar numa competição de corais, o grupo era a sensação do colégio, apresentações lotadas, aplausos efusivos, músicas natalinas arrancando lágrimas. Era quase uma turnê.

No ano seguinte, a Matemática desafinaria ao menino. A geometria trouxe uma melodia e um ritmo complicados a ele, nem Djavan conseguiria acompanhar tamanha complexidade. Dois bimestres e as duas primeiras médias vermelhas.

O contra-ataque foi cruel, a mãe não entendeu que o coral nada tinha a ver com aquilo, mas foi a única leitura que conseguiu alcançar. Mesmo que, de todas as 13 matérias, as médias variassem entre 8 e 10, o que prevaleceu foi o negativo.

O coral saiu da vida dele. A música se calara.

Até que seis meses depois, o próprio maestro tocou na casa do garoto, um disco seria gravado, e a voz do menino estava sendo requisitada pelo mais alto escalão. Aos 14 anos, um disco, sonho.
 
Não. A mãe não cedeu. Disse não a todos os pedidos do maestro. O compacto de 4 músicas foi gravado. Havia 70 rostos naquela capa e 70 assinaturas dedicadas à voz que não apareceu naquela tarde de outono de 1987.

Hoje, cada vez que subo para um show, ainda tento colocar os 70 rostos comigo no palco. Ainda tento me colocar naquele compacto, mas não trocaria as incontáveis apresentações que fiz até agora para estar naquele disco, apenas gostaria de entender...
 
... Geometria.

 

 

sábado, 29 de setembro de 2012

QUE FILME ELE FEZ MESMO?

Em HANNIBAL
Assim como a memória é usada para livros, uma frase ou uma história pode se repetir, no cinema, justamente por ser visual, a frequência é muito mais alta. Não é incomum assistir a um filme e se deparar com um ator ou atriz e você não conseguir prosseguir com a história porque sabe que conhece aquele rosto.

Em JOHNNY ENGLISH
O interessante é quando as estrelas mirins eram estrelas e não sabíamos. Ou quando algum talento aparece e seus olhos já o tinham visto, mas nem se deram conta.

E pior ainda quando você conhece o rosto, mas não sabe o nome, daí sim o Google acaba mostrando um talento ainda maior na sua busca.

Em 300
E isso aconteceu comigo no domingo. Assistindo ao filme O DESPERTAR, um thriller de horror nota 6, uma personagem me tirou toda atenção da trama. Tive de parar a exibição para forçar minha memória: “Em quais filmes esse cara já atuou?” E o mais surpreendente é que o rosto me apareceu duas vezes em uma semana, no divertidíssimo
O RETORNO DE JOHNNY ENGLISH.
Em ROCK STAR
E pude ver o filme aliviado, quando os trabalhos dele foram pipocando em minha memória. ROCK STAR, 300, HANNIBAL, A ORIGEM DO MAL. Pois é, os nossos neurônios também são treinados pela memória visual. Ah, sim, claro, o ator é o inglês Dominic West, muito talentoso, e essa informação nada significará a você.
 
 

 


sexta-feira, 28 de setembro de 2012

FOI SÓ UMA PICADINHA!

Pensou que seria uma brincadeira. Sabia que o cara era disso, 20 anos e amizade não poderiam significar algo sério agora. Eles se conheciam antes de o amigo entrar em Medicina e se especializar em oncologia.

Não podia ser. E justamente agora, no momento em que mais precisava de apoio? Separação, insatisfação profissional e mais isso: “Um tumor?! Inoperável?! Poucos meses de vida?!”

Ele gargalhou esperando que o amigo o acompanhasse, mas o tom soturno apagou qualquer possibilidade de imitá-lo. Pediu um conselho e ouviu: “Viva!”

A vontade era de se matar quando saiu do consultório. Não conseguia norte, mas parou num bar e virou uma garrafa inteira de tequila, com todos os limões possíveis. Tinha apenas 45 anos. “Viva”.

Conseguiu ser demitido, 20 anos de empresa renderam a ele mais de 500 mil reais. Juntou com a poupança. Viajou para Nova Iorque, museus, Broadway, uma tatuagem com Ami James, frituras e bebidas. Apaixonou-se por uma italiana.

Viajou com ela até Petra. Andou de camelo. Conheceu os pais dela em Milão. Deixou-a lá com a promessa de voltar. Paris. Esperou horas para constatar que a Monalisa tinha um tamanho pequeno demias pela grandeza. Comprou uma prostituta em Amsterdã. Quase foi espancado por mostrar as pernas no Egito.

Amou o Marrocos. Tirou uma foto ao lado da Mafalda em Palermo, Buenos Aires e estava pronto pra morrer assim que voltou, seis meses depois. Desembarcou e foi direto fazer um check up com o amigo, que o monitorou por quase 180 dias a distância.

Quando entrou, sentiu uma vontade enorme de chorar, porque morreria feliz agora. O doutor sorriu de volta, pegou o jornal e deu a ele, dizendo:

- Amanhã cedo, abra nos classificados de empregos, não há tumor que resista a uma mentira.

Catarina, a milanesa, chegou no mês seguinte, e concordou que a nossa pizza é melhor que a deles.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

O GAMBÁ MAIS PALMEIRENSE DO MUNDO

Nasci palmeirense. Nasci não pronunciando o nome do time da marginal. Mas, amando sempre futebol, nunca me fechei nessa ridícula ideia de prestar atenção somente no time ao qual se torce.

Sempre falo que conhecimento nunca é demais e saber sobre o inimigo sempre pode ser útil, pelo menos em algum dia. No meu caso foram em dois.

1993, compra de ingressos da primeira final do Paulistão. Morava no Tatuapé na época e fomos à Fazendinha. Aquele medo de olharem bem fundo em seus olhos e descobrirem o Paciello em meu sangue estampava o meu rosto.

Graças à nossa cultura, meu irmão Marcelo e eu nos passamos por torcedores da Gaviões. E era difícil ficar natural e ver meu irmão falar sobre o timaço do Palmeiras a todos da fila, e eles concordando e temendo o pior, que viria duas semanas depois a eles.

O melhor foi dar carona a um rapaz de Osasco, porque ao abrirem os guichês, a ansiedade de todos fez as filas sumirem – tivemos de ir ao Morumbi. E quando o menino soube que éramos palmeirenses, só faltou engolir o boné preto e branco e parabenizou pela farsa, confessando que sabíamos mais do que ele.

E a farsa se repetiria. Tinha ficado até mais tarde no trabalho numa quarta-feira fria. O time da marginal jogaria pela Libertadores naquele dia. E, na estação Tatuapé do metrô, havia uma concentração de Gaviões por lá. Ao toque da campainha, eu, perto da porta, fui condecorado por um menor, que, como um raio, entrou e puxou minha pulseira de ouro.

Instintivamente, gritei, correndo atrás do Usain Bolt, que voava. O menino estava com a camisa do Corinthians. De pronto, todos da uniformizada viram a cena e se puseram a perseguir o infrator. Logo foi dominado por uns 3, que o puseram no chão, tiraram a pulseira das mãos dele, devolveram para mim e arrancaram a camiseta do moleque.

Perguntaram se eu estava bem, agradeci pela ajuda. E o menino foi levado pelos seguranças, parecia que ele sabia que o chaveiro no meu bolso era verde e branco, mas a comitiva seguiu para o Pacaembu e eu para minha casa. Mas só depois de eu sugerir que naquele dia o Ricardinho faria dois naquela noite.

Você sabe quem é Ricardinho? Pois é, eu sabia e se eu precisasse cantar o hino deles, já estava pronto, em mi bemol, e com todos os erros gramaticais na ponta da língua.

 

  

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

MORTADELA ARNOLD

Qual é a diferença entre um fanático por novelas e o fanático por séries? Nenhuma, mas há os que digam que o último é mais culto. Daí, pode-se dizer que os fãs de enlatados são os noveleiros assumidos. Sim, porque no Brasil novela é igual mortadela, todos amam, mas as consomem escondido.
Entre os enlatados que me deixam presos à tela, existe um que me mostrou mais que um talento de histórias e um banho de criatividade, THE WONDER YEARS - ANOS INCRÍVEIS - entrou na minha vida de forma definitiva, uma mortadela e tanto.
Além do estilo Twitter de se contarem histórias, cada uma com aproxidamente 22 minutos, a série são os minutos mais arrebatadores com os quais já me vesti. Uma aula de como surpreender, uma aula de como se deve cativar. Consegue dar formas à emoção. Um dos melhores professores que tive e o mais encorajador para que eu começasse a escrever.
Já amei e odiei Kevin Arnold, já mandei torturar e matar o Wayne Arnold. Fiz de Karen minha cunhada, de Winnie Cooper uma santa e de todas as músicas a trilha sonora de meus sonhos.
Torço para que todos já tenham se encontrado com as histórias de Carol Black e Neal Marlens. Ouso dizer que aquele que nunca viu um episódio não saberá do que o talento é capaz e nunca terá certeza se realmente Marilyn Mayson era Paul Pfeiffer.

domingo, 23 de setembro de 2012

A PIOR SURRA DA MINHA VIDA

Irmãos: a primeira prova viva de que a convivência é a inimiga da paz. Tenho dois, um gêmeo e um geminiano. Quem já conviveu com alguém desse zodíaco sabe que a bipolaridade está na digital.

Dentre muitas histórias antagônicas, uma se destaca. Em 1983, eu já amava rock’n’roll, devorava as revistas que meu irmão mais velho comprava e gastava as fitas K7 dele. Ídolos do metal ilustravam meus cadernos, fato: Marcelo Paciello era meu ídolo.

E meu gosto musical sendo desenvolvido, começava também a tentar seguir outros passos. E confesso, quando vi Michael Jackson fazendo o Moonwalker, quase pirei. Ver aquele cara deslizando de maneira fenomenal não cabia com guitarras, mas em Billie Jean, era quase como um Iron Maiden da dança.

O andar de cima do sobrado onde morava era de taco. Minha mãe costumava encerá-lo e depois de uma demão de cera. Não titubiei, calcei meias brancas e tentei deslizar como aquele cara de luvas e aura brilhantes.

E deveria ter tentado por 5 minutos, porque quando olhei pra frente, estava o primogênito, com aqueles olhos azuis esbugalhados, vertendo sangue e me condenando ao inferno:

- Playboy! Não ouse mais falar de rock, você não merece escutar mais o som dos deuses!

Tomei muitas surras dele, mas essa foi a pior. Humilhado, julgado e morto. Qualquer murro é doloroso, porém com aquelas palavras fui a nocaute.

O que isso tem a ver com a bipolaridade? 26 anos depois, num show da Long Play Rock, Marcelo incentivou a banda a fazer uma homenagem ao rei do pop, morto há 2 meses. Billie Jean saiu da minha garganta. Dos meus pés não, porque se tentasse uma segunda dança, minha banda hoje teria outro vocalista.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

TOMARAM O CASTELO

Dizem que fica fácil identificar quando estamos envelhecendo. Os sinais são clichês. Mas nada pior que ver o seu passado sumir, literalmente.

Dia desses estava a caminho do trabalho, na República, estava de carro, e sempre faço o meu itinerário, pegando a rua Nestor Pestana e para minha surpresa, o belo castelo da Kilt Shows desapareceu, sumiu, escafedeu, vazou!

Num projeto de revitalização do local, a prefeitura pôs abaixo um antro cultural.

Quem tem mais de 30 anos sabe da tradição do lugar. As pessoas mais influentes, intelectuais e similares se encontravam por lá.

Em 1991, meus 18 anos foram comemorados à base de muita poesia, árias de cravo e debates filosóficos.

Lembro também que de tanta profundidade, meu gêmeo saca do baralho e sugere uma partida de truco. Pois é, a simplicidade do nosso gesto não foi bem recebida.

Uma das sopranos, se não me engano, a que usava apenas uma pluma na cabeça. Pediu para esquecermos esses vícios e nos dedicarmos às artes, caso contrário não seríamos bem quistos por lá.
 
Pena, justamente quando o amigo ao lado gritava “seis” e eu estava com zap na mão!